Morar e estudar fora Viagens para dentro

O que aprendi com 1 ano de desemprego

Geralmente é no fim do dia, pelo menos uma vez na semana que eu entro numa onda de desespero com o rumo que minha vida está tomando. Faz um ano que terminei meu mestrado no exterior e estou no processo de procurar o meu primeiro emprego “de verdade”. Digo de verdade porque, apesar de ter um bocado de experiência, meus trabalhos nunca foram remunerados ou foram estágios.

Quando eu escolhi estudar relações internacionais, meus pais não julgaram minha decisão. No entanto, avisaram que eu estava tomando um caminho desconhecido. Era um curso novo, com uma carreira pouco conhecida em uma área que eles tinham e têm pouco ou quase nada de conhecimento sobre. Tive apoio, mas sabia que seria uma caminhada solitária e arriscada.

Desde o primeiro período, envolvi-me nas mais diversas atividades. Tive o privilégio de me preocupar unicamente com minha educação e meu futuro. Nunca fui a aluna brilhante, mas me relacionei com todos e participei de tudo que me chamaram. Fiz estagio no departamento de intercâmbio da faculdade, ia para todas as palestras pelas horas complementares, fiz alguns modelos de simulação da ONU, fui voluntária em vários projetos sociais e até fiz parte do centro acadêmico. Sem contar com as grandes oportunidades que tive de fazer dois intercâmbios. Ouso dizer que usei bem minhas oportunidades e, apesar do privilégio, reconheço o meu valor e meu esforço.

Quando me formei foi o primeiro baque: não conseguia emprego no Brasil. Foi um período de 6 meses muito difícil que só terminou quando eu passei para uma vaga em uma ONG na Índia numa cidade que nunca ouvi falar. Fui para Ahmedabad trabalhar na minha área. Parecia um sonho! Chegando lá, descobri que não era tanto assim. Aprendi muito, mas foi muita porrada. A Índia não é pra qualquer um. Eu sobrevivi às incontáveis histórias malucas que já contei em outros posts e hoje até sinto falta dessa época. Fiquei feliz de colocar um ponto final nessa aventura depois de 6 meses, quando passei pro meu mestrado.

O mestrado foi um passo planejado. Eu sabia que queria trabalhar na ONU ou em organizações internacionais e todas as vagas pediam mestrado. Mesmo sem ter uma experiência de longo prazo trabalhando num único projeto, mergulhei na academia mais uma vez e estudei como nunca. Além disso, fui membro do comitê de esportes, organizei campanha contra volunturismo na faculdade, fui escolhida como embaixadora dos alunos internacionais e fiz um estágio na Oxfam – uma ONG internacional na minha lista de lugares que amaria trabalhar.

Até ali, deu tudo certo.

Ao fim do mestrado, me vi novamente no limbo perigoso entre educação e emprego. Apesar de muito qualificada e articulada, comecei a ser julgada por critérios muito mais rígidos de habilidades que em nenhum momento foram exigidas de mim.

Para fazer um estágio, qualquer experiência já conta como ponto positivo. Para uma vaga junior, você já tem que ter 3 anos de experiência naquele cargo muito específico.

Bati na trave várias vezes.

Nesse último ano, venho experimentando o gosto amargo do fracasso a si mesma. Aquele gostinho de que você falhou a si própria e mais ninguém. Ninguém me cobrou sucesso. Não vou morrer de fome ou morar no olho da rua, pois tenho família e companheiro que me ajudariam. Mas vivi na baseando cada decisão no quanto restava na poupança. Gastando todas minhas economias para momentos em que eu precisava espairecer. Vendi minhas coisas, vendi meu carro.

Olhando para trás, o aniversário do desemprego até que me ensinou muita coisa.

 

Desapego

Primeiramente, me ensinou o desapego. Vendi roupas, livros, eletrônicos. Estava decidida a diminuir meus pertences. Ainda não cheguei onde queria, mas daqui a pouco chego lá. Minha vida tem que caber em poucas malas enquanto eu não consigo a estabilidade para ter um lugar pra chamar de lar. Evito comprar coisas e gasto meu dinheiro com experiências. Espero as brusinhas ficarem com furinhos pra comprar novas. Por isso, comecei a me interessar por moda sustentável e estilos de vida minimalistas. Ainda não cheguei onde eu queria, mas meu pensamento consumista já mudou bastante.

Fracasso e resiliência 

Esse ano também me ensinou muito sobre lidar com fracasso. Aos meus 25 anos, me vi cheia de conquistas bacanas. Viajei o mundo, fiz um mestrado, aprendi a ser feliz sozinha e encontrei uma pessoa para dividir a vida. E, de repente, parei no tempo. Mandei mais de 200 currículos, da maioria nunca recebi resposta. Participei de incontáveis processos seletivos: em alguns fui muito mal e em outros cheguei no top 2 entre mais de 200 candidatos. Fui até o Uruguai procurar emprego e desisti do país ao ser humilhada na entrevista do meu trabalho dos sonhos sem ter chance de mostrar meu valor. Nunca chorei tanto na minha vida. Também passei numa vaga da ONU, mas não pude ir porque era não remunerada e não tinha dinheiro para me bancar – mesmo sabendo que essa oportunidade poderia me abrir portas incríveis no futuro.

Eu me senti – e ainda me sinto, de alguma forma – fracassando a Louise adolescente que acreditou muito em si mesma ao tomar decisões importantes lá atrás.

Aprender a lidar com o fracasso te torna mais resiliente. Olha aí uma habilidade útil pro mercado! Eles querem alguém que aguente qualquer porrada? Contrate alguem que está há 1 ano desempregado e ainda não desistiu. Nada do que você peça vai ser mais difícil do que passar pelo desemprego – ainda mais para aqueles que têm boletos para pagar e crianças para alimentar – o que, felizmente, não é meu caso. Valorize quem já passou pelo fundo do poço.

Aceitar críticas 

Aprender a aceitar críticas e transformá-las em combustível para mudança é importante. Tem que se despir do ego e às vezes do que a gente tem como convicção. Se torne ouvinte daqueles que estão dispostos a dar um feedback. Saiba filtrar o que vai te ser útil. Incorpore isso na forma como você enxerga o mundo, no novo formato do seu currículo e em como você aborda seus contatos profissionais. Repetir padrões de comportamento não nos levam a lugar nenhum. É nesse momento onde não se tem nada a perder que a gente tem a oportunidade de tentar, inventar, inovar. O céu é o limite.

Solidão

Outro grande aprendizado é o lidar com a solidão. Eu já tinha passado por um processo de estar em paz com minha própria companhia. Gostava de viajar, ir ao cinema e comer num restaurante sozinha. No entanto, dessa vez é diferente. A solidão que se experimenta é a sensação de que ninguém no mundo pode fazer nada por você, por mais que você esteja rodeado de pessoas que te querem bem. Não importa quantos amigos e família você tenha, essa é uma jornada solitária onde você e só você sabe a hora de desistir ou de seguir de cabeça erguida. Só você sabe traçar novos planos ou insistir no seu sonho. Depende unicamente de você ao mesmo tempo que depende unicamente de alguém te dar uma oportunidade. É bem difícil entender isso.

Saber a hora de pedir ajuda 

Isso entra em um outro tópico: o saber pedir ajuda. Percebi que muita gente gosta de esconder ou criar eufemismos para falar de períodos de desemprego. Ninguém gosta de admitir que fracassou ou que não está exatamente onde gostaria de estar. Nessa brincadeira de fingir que está com “projetos rolando”, se perde a oportunidade de ser sincera e pedir ajuda de colegas da indústria.

Eu usei minha voz diversas vezes no LinkedIn e me aproximei de colegas com que não falava ha séculos! Marquei skypes com completos estranhos para de falar de carreiras. Escutei de muitos que eu era corajosa por tornar público a minha busca por um trabalho.

Amigos próximos à vezes não se movem para dar apoio ou ajuda, mas talvez a ajuda de um desconhecido é o que vai te dar força e rumo.

Ser vulnerável e pedir ajuda não são pecados. Você tem que saber quando é a hora de abordar as pessoas e pedir uma mãozinha. Está tudo bem!

Explorar novos mundos 

Ter muito tempo para pensar faz você lembrar todos aquele hobbies que você prometeu um dia levar mais a sério, mas deixou para depois. O blog foi uma ferramenta importante nesse momento, onde se tornou uma desculpa para que eu estudasse sobre mídias sociais e marketing de forma informal e na prática. Ele também acabou me trazendo de volta ao desejo de fotografar. Cheguei a pensar em vender a câmera, mas achei que a vontade de explorar isso era maior que a necessidade daquele dinheiro. Estudei fotografia e comecei a ser uma grande curiosa dela. Esse mês vou ganhar meus primeiros trocados pelas minhas fotos. Desenvolver uma habilidade comerciável te dá uma sensação de resultados a curto-prazo. Para quem está há 1 ano sem resultados concretos, ter uma habilidade que proporcione isso te dá um propósito.

Saúde mental 

O tempo de sobra também é perigoso para saúde mental. Não há quem passe por isso completamente são. É uma rotina de questionar seu valor, se reinventar, criar narrativas para se vender. Estamos extremamente vulneráveis. Às vezes me sinto como se estivesse pelada na frente de um Maracanã lotado. Apesar de ser uma causa pontual, o desemprego acaba desenterrado outros traumas que precisam ser tratados. Tudo está interligado dentro da nossa cabeça. É importante, em momentos como esse, que a gente invista no auto-cuidado. Eu voltei à terapia depois de alguns anos e isso tem sido importante para passar por esse momento que eu descreveria como uma mistura de furacão com calmaria. O desemprego é como a loucura de uma tempestade e o tédio de um domingo chuvoso.

Cuidado com as redes sociais 

Na era das mídias sociais, a gente cai na armadilha da comparação com a vida alheia. Só que a gente acaba comparando nosso estado de mais profundo desespero com a foto feliz que o seu conhecido resolveu postar. O que é postado nada mais é que o melhor recorte das nossas vidas.

Outro dia encontrei uma amiga cujo trabalho me parecia dos sonhos. Foi transferida para outro país às custas da empresa e tudo. Ao conversarmos, ela me confessou o quanto estava sendo difícil. Seu salário era suficiente para se manter, o projeto no exterior acabou antes do previsto porque o orçamento foi cortado e ela estava se sentindo presa criativamente naquele ambiente. Mesmo sabendo das dificuldades, continuo achando que é o emprego dos sonhos. É muito fácil para quem está de fora.

A gente sempre acha que a nossa situação pode melhorar e a dos outros é perfeita. Todo mundo está passando por suas batalhas internas e, em algum momento, duvida do seu potencial. A gente sempre quer estar numa situação desafiadora e segura ao mesmo tempo. Não se valha das redes sociais alheias para saber que seus amigos estão felizes. Ali, a gente sempre está. Separe um tempinho para desconectar-se e reconectar-se. Chame alguém para tomar café e descobrir como a vida está.

A síndrome do impostor e redes femininas 

Foi uma grande descoberta saber que muita gente dessas que a gente admira está tão perdida quanto a gente. A crise do impostor afeta todos, mas reparei que afeta especialmente mulheres. Nesse exercício de entender por que mulheres se sentem menos confiantes – mesmo numa indústria em que a maioria das profissionais são mulheres – que encontrei oportunidades de construir pontes feitas de sororidade.

Comecei a ler mais mulheres, consumir mais produtos de empreendedoras mulheres, estudar sobre a história de grandes mulheres. Surgiu também a oportunidade de começar um grupo de networking só de mulheres da minha área, que ainda engatinha, mas tenho certeza que vai ser passarinho um dia. O poder feminino de acolher, se adaptar e agir tem sido minha religião. E, por isso, sou grata.

 

 

Ontem chorei por achar que esse um ano foi vazio e inútil. Principalmente vendo o buraco no meu currículo sem ter trabalhado ou estudado. Resolvi sentar aqui para escrever tudo isso de forma terapêutica e descobri o quanto aprendi. E, quando aprendo, quero passar o conhecimento adiante. Não porque me sinto na posição de sabe-tudo, mas porque me sinto na obrigação de mostrar o lado que ninguém mostra. Assim, mais gente se identifica e vê que não está sozinha. Vamos desmistificando juntos e juntas os imaginários de felicidade, propósito e realização. Talvez eu seja a amiga com a grama mais verde de alguém e eu tô aqui para mostrar que, na verdade, nenhuma é. Depende de tanta coisa. Minha grama pode ser mais verde porque eu nasci num terreno onde bate mais sol, ou porque eu jogo uma areia verde para fingir que não sofri com a seca.

Sua jornada de carreira e de vida é o seu jardim. Essa história é só e somente sua. Apesar de passarmos coletivamente por coisas parecidas, o seu caminho só você percorreu. Continue regando, plante novas flores, troque de adubo. Há de florescer.

7 thoughts on “O que aprendi com 1 ano de desemprego”

  1. Que depoimento lindo! Como eu queria ter lido isso há um ano atrás. Fiquei um ano desempregada também e hoje vejo o quanto esse período foi rico, apesar de muito difícil. Existem momentos de plantar e colher, a gente tem que confiar no tempo das coisas e aproveitar as coisas bonitas que aparecem no caminho. Espero que você continue se redescobrindo!

  2. Nossa! Obrigada por compartilhar. Aprendi muito com seu post e ficarei do lado do cá torcendo para que você crie o seu “emprego dos sonhos”.
    beijos

  3. Estou em um momento diferente da vida, tenho 49 anos e estou desempregado há 3 anos. Meu último trabalho foi na Universidade onde era pesquisador. Fiquei lá por 10 anos até a Petrobrás cortar as verbas no final de 2016. Achei seu texto muito bom. O desemprego afeta o emocional de uma forma contudente. Identifiquei-me com vários trechos, principalmente aquele em que você fala da solidão. Não é fácil. Também estou com ajuda de terapia. Enfim… são muitas pessoas nessa situação. O desabafo é o inevitável, seja de qual forma for. Vamos aguardar o dia de amanhã.

  4. Caramba Louise, parabéns!! Escreve muito bem e é muito forte por ter coragem de mostrar sua vulnerabilidade. Incrível sua escolha de palavras e capacidade de despertar emoção nos outros. Me despertou para muito que já estava aqui!!

    Quero participar desse coletivo aí pfv!!

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