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“Para viajar o mundo basta querer” – O mito da meritocracia no mundo das viagens

Oi, meu nome é Louise. Eu tenho 25 anos e 32 países visitados na poupança. Apesar disso, não virei aqui com um discurso de que para viajar o mundo “basta querer”.

Como entusiasta de viagens, eu sempre cumpro meu papel de dar o maior apoio para as pessoas colocarem o pé na estrada. Acredito, que muitas vezes, os empecilhos são completamente contornáveis: Falta de coragem? Falta de companhia? Não sabe por onde começar? Não tem muito conhecimento sobre o destino? Tudo isso é facilmente solucionado e há um milhão de pessoas nessa blogesfera de viagens disposto a ajudar com todo tipo de dica.

Então, por que não é tão fácil assim “só colocar a mochila nas costas e ir”?

Viagens são um privilégio. Apesar de eu achar que a viagem enriquece o ser humano, o fato de nos permitirmos sonhar com viagens já nos faz privilegiados.

Já pensou que tem gente que nunca saiu da sua cidade? E não to falando nem do estado!

Eu vejo muitos relatos nessa blogesfera de viagens, pessoas vendendo a ideia de que se você se esforçar bastante, você consegue viajar. Eu acho essa afirmação um pouco problemática dependendo da forma como ela é abordada.

Realmente, viajar requer planejamento e sacrifícios. Mas eles não são para todos.

Simplificar essa matemática e afirmar que o esforço é a única variável necessária para você realizar um sonho é malicioso. Moramos em um país com um histórico de mais de 500 anos de desigualdade racial, social e de gênero. As jornadas de vida são definidas não somente pelas nossas ações, mas pelo nosso lugar no mundo. Dependendo de onde viemos, não nos ensinam nem a sonhar grande.

Eu tive a sorte de ter nascido numa família de classe média. Meus pais ralaram para dar um futuro para os filhos, abriram mão de muita coisa. E eu, hoje, falo com vocês em cima desse esforço alheio que me trouxe até aqui. Não seria o que sou hoje se não fosse o trabalho duro dos que vieram antes de mim. E meus pais só chegaram onde chegaram por causa dos pais deles. Tiveram a oportunidade de se dedicar aos estudos e frequentarem a universidade, onde se conheceram e começaram uma vida bem simples juntos.

Uma pesquisa da Oxfam divulgada em janeiro de 2018 apontou que 5 bilionários concentram o patrimônio equivalente à renda da metade mais pobre da população. CINCO INDIVÍDUOS. Enquanto 1/4 da população vive abaixo da linha da pobreza. É inegável que números gritantes de desigualdade não influenciam na maneira como vivemos e consumimos.

Por isso, quero convidar vocês a repensar privilégios juntos. Pode ser que você não se identifique com tudo, ou pode ser que sim. No entanto, reconhecer privilégios não significa que sua vida foi fácil. Reconhecer privilégios não significa que você não se esforçou. Só significa que outros fatores não tornaram sua vida ainda mais difícil. Vamos começar a pensar nesse assunto bem do início?

Como você começou a sonhar a conhecer o mundo?

Se eu buscar na memória minhas primeiras lembranças de desejar ir para algum lugar fora do Brasil, foi vendo filmes da Disney. Nas fitas que tinha em casa, mostravam os parques da Disney em Orlando e eu pensava no quanto aquilo era distante da minha realidade. Lembro de ver o Epcot, Hollywood Studios, o Mickey dando tchauzinho e pensar que eu NUNCA viveria aquilo.

Minha segunda memória foi dos meus avós. Já mais velhos, antes de eu nascer, eles gastaram suas economias indo à França. Eu lembro que isso era uma ostentação danada na época. Acho que eu me prendi à essa viagem deles por muitos anos como a minha única inspiração para um dia, talvez, conhecer Paris.

A história da minha família mostra a complexidade do assunto. Ao mesmo tempo que reconheço meu privilégio de poder ter tido a chance de sonhar com o mundo, nunca achei que estava ao meu alcance. Da mesma maneira que eu não nasci em família em que viajar era uma coisa natural e corriqueira, eu não nasci numa família onde as prioridades eram de sobreviver o dia.

Eu tive a chance de sonhar com o mundo. Eu não precisei me preocupar em trabalhar para sustentar uma família, tive comida e teto, pude focar em estudar. Não precisei largar a escola, não precisei ficar em casa para tomar conta de irmãos ou filhos.

Ao assumir tudo isso, não estou dizendo que tive uma vida fácil. Mas que eu não fui impedida de sonhar por uma série de dificuldades que famílias brasileiras enfrentam todo dia.

Enquanto escrevo esse post, na televisão, uma menina de 9 anos fala no jornal que passou o fim de semana todo estudando para uma prova que foi cancelada por conta de tiroteios na região onde mora. “Não são as crianças que não querem estudar, são eles que não nos deixam”. Isso mostra o quanto o argumento de “só querer” não funciona para todos.

E você? Foi livre para sonhar em viajar? Viajar já foi algo tão natural para você que nunca nem parou para pensar no assunto? Ou teve que convencer todo mundo que você era capaz de fazer uma viagem?

Isso diz muito de onde a gente veio. É importante saber do nosso lugar e de onde queremos chegar.

O que te impede de viajar?

Os motivos que impedem as pessoas de viajar são diversos. Às vezes, até reconheço que certas pessoas conseguiriam viajar se soubessem se planejar financeiramente. Vejo pessoas com situações financeiras muito melhores que a minha reclamando de não conseguirem viajar. Nesses casos, temos que avaliar se o que tá faltando é realmente o “esforço” ou saber reconhecer que a viagem não é uma prioridade. Eu não ligo de economizar com saídas, mas muitos amigos dão valor àquela cervejinha do fim de semana. E tá ok escolher o que te faz bem.

Ao mesmo tempo, tem os que realmente não têm meios de investir numa viagem. O mais importante é ser maduro para reconhecer que você pode levar mais tempo pra atingir aquele sonho que você realmente quer. Não vamos romantizar o sacrifício a qualquer custo.

Viajar com segurança não é pra qualquer um

Um homem branco e americano viaja sozinho para um país não muito seguro chamado X. Uma mulher negra viaja pro mesmo lugar sozinha. Você acha que as experiências serão as mesmas? Ainda, em quase todos os lugares do mundo, existem muitas discriminações baseadas em gênero, etnia e religião. Já tive amigos barrados em boates europeias por vestirem roupas típica do país deles. Já tive amigas negras assediadas e objetificadas em países diversos. Já sofri assédio por ser mulher em várias viagens.

É claro que nada disso fisicamente impede ninguém de viajar –  e nem deveria! Eu continuo viajando sozinha por mais difícil que seja. Mas é importante reconhecermos quais privilégios facilitam nossa vida. Na Índia, por eu ser mais branca que a maioria da população, me foi dito que eu parecia uma indiana bonita. Ser branca por lá é o auge do privilégio! O mínimo que posso fazer é reconhecer isso e buscar formas de como usar o meu privilégio para minimizar o alheio. Se você é homem e se sente seguro em andar na rua a noite, por exemplo, acompanhe sua colega mulher até o hotel dela. Não custa nada.

E o dinheiro?

Esse é um dos grandes motivos pelo qual pessoas não viajam. Claro que posso fazer aqui uma lista de como viajar de forma barata, mas existem pessoas para quais o discurso meritocrático simplesmente não funciona. Meritocracia só existe quando temos as mesmas oportunidades.

Se você têm dinheiro suficiente, mas não viaja, é só se planejar e rever prioridades. Mas, por favor, seja responsável ao afirmar que viajar é “só querer”.

Não é porque tem meia dúzia de exemplos de superação de pessoas que já foram pobres e hoje viajam o mundo que a desigualdade não existe.

Vivemos em um mundo que uns são aplaudidos por botarem o pé na estrada sem grana para se aventurar, mas que demonizam o refugiado que foge de casa (também sem grana) para sobreviver – no sentido mais cru da palavra. Achamos lindo o cara que vai fazer trabalho voluntário no Laos, mas olhamos torto pro venezuelano que cruza a fronteira porque é a única forma de ter uma vida digna. Eu sou corajosa por migrar e tentar a vida em outro lugar, mas o cearense que foi para capital em busca de trabalho é o preguiçoso? Não faz sentido. Para a gente, viajar pode ser lazer, mas para outros é sobrevivência.

O que eu quero dizer com isso tudo?

Se você quer viajar, pese os sacrifícios que esse investimento vai te trazer. Não passe por cima dos seus valores morais e sua dignidade mínima. Não tem porque ficar com super inveja da amiga que vive viajando, se sua prioridade sempre foi a família.

Não se sinta culpado de não ter o que conversar com a galera da firma quando todo mundo tá falando de viagens, quando só você sabe o esforço e dedicação que levou para você chegar onde eles chegaram sem muitos sacrifícios.

Não se sinta menor que aquele americano que bateu o recorde do mais novo a conhecer todos os países do mundo. Esse cara já nasceu a 5 mil km de distância nas casas do privilégio.

Nunca se sinta culpado por vir de onde veio. Nunca se compare com os outros e sinta que não conquistou nada.

Sim, você pode chegar onde quiser. Não há limites. Mas há obstáculos. Muitos! Pese os sacrifícios e faça uma análise do que você está disposto a fazer e de quais sonhos você pode flexibilizar.

Não dá para conhecer o mundo todo? Conheça o seu país. Não dá para viajar para muito longe? Conheça uma cidade diferente no seu estado. Não dá para viajar nos próximos anos? Economize para uma viagem bacana quando der.

Já você, que de uma maneira ou de outra se beneficia de algum tipo de privilégio, esteja de mente e coração abertos para reconhecê-los. Pense duas vezes antes de afirmar seu discurso meritocrático. Se coloque no lugar do outro. Não se sinta melhor do que ninguém por ter a super oportunidade de poder conhecer o mundo. Saiba que ninguém está depreciando suas conquistas ao apontar os privilégios nos quais você escalou para chegar até aqui.

 

2 thoughts on ““Para viajar o mundo basta querer” – O mito da meritocracia no mundo das viagens”

  1. Hola! Caí aqui no teu site porque estava pesquisando sobre como é viver no Uruguay e li esse texto e me encheu de alegria no coração lê-lo. Tu traduziu totalmente o que eu penso acerca desse assunto, com uma escrita extremamente agradável, cheia de empatia e humanidade! Já favoritei aqui pra acompanhar mais os teus escritos! 🙂

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