Turismo consciente

Como viajar de maneira mais sustentável? 12 dicas para um turismo mais responsável

Você já parou para pensar no impacto que o turismo causa no meio ambiente e a sua contribuição para a mudança climática?

Pois é.. O turismo é responsável por 8% das emissões atuais de gases de efeito estufa, segundo uma pesquisa feita pela Universidade de Sydney. (1) O turismo global têm crescido numa taxa anual de 5%, até mais do que o comércio internacional! (2) Atualmente, a indústria do turismo contribui mais para a intensificação das mudanças climáticas do que para o crescimento do desenvolvimento econômico, mostrando que, no geral, é um setor eco-ineficiente. (3) Contudo, a maioria das viagens turísticas são relativamente eco-eficientes já que podem ser realizadas por terra (trens, carro e ônibus).

As viagens são uma válvula de escape onde muitos turistas fogem do stress do seus cotidianos e da falta de verde dos grandes centros urbanos, gerando relações irresponsáveis entre seres humanos e natureza. A ideia de que suas férias são sagradas, geralmente te dão a sensação de que você tem direito de desfrutar daquele destino da maneira que julga agradável e prazeroso. (4) Esse momento de paz e alienação deixa o ser humano cada vez mais distante e ignorante sobre seu lugar no mundo e seu papel como uma espécie que coexiste com as demais. Afinal, a degradação do meio ambiente não é um assunto interessante para pensar enquanto você está tirando suas merecidas férias.

O impacto negativo do turismo já é real! Em ilhas turísticas como Maldivas e Ilhas Maurício já têm 80% das suas emissões de gases de efeito estufa provindos da atividade turística. (5) Nas Maldivas, 95% do turismo ligado às emissões desses gases é feita por estrangeiros e é um dos países que mais sentem as mudanças do clima. O aumento do nível do mar e as temperaturas elevadas são responsáveis pela existência de refugiados climáticos. (6) Ou seja, depois que a viagem luxuosa e babadeira para o resort das Ilhas Maldivas acaba, quem tem que lidar com as consequências é a população local que sequer tem culpa. Tá acontecendo agora… assustador!

Dentre os demais impactos causados, podemos citar o aumento de geração de resíduos, uso da energia elétrica, tráfego de veículos – especialmente o tráfego aéreo – e alteração do ecossistema e comunidades nativas. Viajantes normalmente se deparam com mais escolhas (por dia de viagem) para aumentar sua contribuição pessoal ao aquecimento global que para reduzi-la. (7) Apesar desse problema ser muito maior do que nossas escolhas individuais, nós turistas podemos ser conscientes das nossas atividades e prestar atenção nos bens que compramos, reduzir nossas emissões quando possível  e nos engajar para reivindicar que medidas sejam tomadas num âmbito macro. (8)

Essa lista é um guia para ajudar aqueles que querem contribuir positivamente e fazer sua parte para diminuir os danos durante as suas viagens.

 

1- Evitar aviões e dar preferência a trens e transportes coletivos

Para se ter uma ideia, uma viagem de avião ida e volta entre Rio de Janeiro e Nova York emite 1,15 toneladas CO2e. Uma viagem de avião entre Rio e São Paulo emite 0.15 ton CO2e, enquanto uma viagem de carro do mesmo trajeto emite 0,07 ton CO2e e a de ônibus emite 0,04 ton CO2e. Se existisse um trem ligando as duas cidades, a emissão seria de 0,02 ton CO2e. (9)

O números falam por si só, né?

A aviação é um dos maiores vilões do aquecimento global, representando 2% das emissões mundiais de gases de efeito estufa. (10) Das emissões de carbono geradas pela atividade turística, o transporte aéreo é responsável por 60% delas. Como muitas vezes não dá para evitar o avião, eu aconselho priorizar a viagem por terra em viagens curtas e dentro do mesmo continente. Se for voar, prefira vôos diretos e leve menos bagagem.

2- Não interfira no ecossistema

O turismo muitas vezes afeta dinâmicas sociais locais e o meio ambiente. A alta demanda de energia e de abastecimento de água potável pode saturar locais que não têm estrutura para um turismo de massa, podendo muitas vezes prejudicar o abastecimento das comunidades locais. Turistas também acabam contribuindo com poluição de mares e rios, como por exemplo no Festival das Luzes na Tailândia; pode influenciar na fauna local, como o caso dos caras que fizeram kitesurfing num lago onde flamingos se reproduzem no Atacama; causar epidemias ou pragas, como o turista missionário que tentou visitar uma população completamente isolada que não tem resistência a doenças simples; ou até na mudança de hábito dos animais, como macacos que atacam turistas depois de serem alimentados por turistas mesmo que fosse proibido.

Na dúvida, não faça atividades que interfiram na natureza e comunidades locais! Sempre questione os passeios turísticos que fizer e seus impactos a curto e longo prazo para fauna, flora e para os que ali vivem. Pergunte para locais o que eles pensam e respeite os limites impostos. (11)

3- Seja responsável pelo lixo que você gera

Não jogar lixo na rua é o bê a bá da sustentabilidade, mas parece que muita gente se esquece quando está viajando. O aumento dos resíduos sólidos e da poluição de rios e oceanos em áreas de turismo em massa são problemas muito preocupantes. Se puder, sempre guarde seu próprio lixo pra descartar depois! Em viagens de imersão à natureza, alguns viajantes mais sabidos até levam sacolas de lixo para coletar o lixo alheio e diminuir o impacto do turismo na região. É muito importante ser responsável por todo lixo que gerar. Você está visitando um lugar que fica no mesmo planeta que o seu e as consequências serão suas também,

4- Diminuir o plástico

Diminuir o uso do plástico é uma boa e simples ação que qualquer um pode adotar. Dizer não ao canudo de plástico, já que ele não é reciclável (ou leve seu canudo reutilizável). Evitar comprar produtos embalados em muito plástico, como aqueles supermercados que vendem tangerina descascada dentro de um plástico – é para isso que a casca serve, meu povo! -, cozinhar no hostel em vez de comprar comidas para viagem. Carregue sempre uma ecobag! Em alguns países já cobram pelas sacolas plásticas para você preferir as reutilizáveis.

Quando a viagem envolve muita andança e calor, dá vontade de beber água em cada esquina. Em vez de comprar garrafas de água mineral o tempo todo, prefira levar uma garrafa reutilizável sempre consigo para encher sempre que possível. Na Europa, a maioria dos países têm água potável na bica, por exemplo.. Nenhuma necessidade de acumular plástico.

5- Não comprar em lojas fast-fashion

Já ouviu falar em fast fashion, ou moda rápida? É um modelo de produção em escala de peças iguais com qualidade inferior para estimular o consumo, geralmente incentivando o consumidor a sempre trocar peças do seu guarda-roupa de acordo com a nova moda. Esse modelo, além de estimular cadeias de produção baseados em trabalho escravo, também emite mais carbono do que modelos de peças comuns. Uma peça de fast fashion emite 400% a mais de carbono em seu ciclo de vida do que peças comuns. Em alguns destinos turísticos, como por exemplo os Estados Unidos, a descoberta das lojas fast-fashion estimulou um turismo de consumo desenfreado. Turistas sedentos pelas roupas da Fovever21, Primark, H&M e Zara viajam com a intenção de comprar e comprar muito! (12)

Priorize as compras de roupa em produtores pequenos para aquecer a economia local e evite financiar grandes corporações que vendem roupas a preço de banana. Se precisar comprar nessas lojas, evite comprar mais que o necessário e foque em peças com maior durabilidade. E lembre-se que existem coisas mais divertidas para se fazer na sua viagem do que passar o dia todo no outlet comprando coisas que você sequer precisa.

6- Comer menos carne

Talvez seja uma medida um pouco mais radical, mas a diminuição do consumo de carne e até a adoção de dietas vegetariana e vegana podem te ajudar a salvar o planeta. Sei que isso é uma prática a ser adotada na vida real e não só quando se está viajando, mas achei legal mencionar mesmo assim. Relatórios da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) apontam que a criação de animais para o abate e produção de laticínios e ovos já correspondem a 15% das emissões de gases estufa no mundo. Poderia me prolongar muito mais sobre o tema, mas há estudos suficiente que estabelecem a relação entre a indústria agropecuária e o aquecimento global. Se não quer cortar os derivados de animais de vez, opte por diminuí-los. (13) A forma como você come pode salvar o mundo!

 

 

 

7- Consumir produtos sazonais e produzidos localmente

Hoje em dia nós comemos e encontramos alimentos do mundo inteiro no mercado perto de casa. Isso se dá graças aos meios de transporte mais avançados e aos fertilizantes químicos que ajudam na produção de vários alimentos durante o ano todo. Essa facilidade em encontrar produtos estrangeiros e fora de época não nos faz questionar quantos quilômetros aquela frutinha percorreu para chegar no seu prato. Ou o quanto de agrotóxico ela levou para ser produzida tão fora de época. Esse hiperconsumo pode gerar extinção de algumas espécies e o desmatamento de áreas destinadas a plantações. Além disso, atividades agrícolas próprias do hiperconsumo são agressivas ao solo e podem contaminar lençóis freáticos pelo uso exagerado de fertilizantes químicos. (14)

Comer produtos sazonais e locais, além de fomentar o produtor local e diminuir emissões derivadas do transporte de alimentos importados, também é mais saudável, barato e SUSTENTÁVEL. (15) Viajando, você ainda tem o privilégio de experimentar os mais variados alimentos dos países em que passar. Para com essa neura de catar o sal dos Himalaias, mamão papaia e quinoa peruana – sei lá.. – na Alemanha… se joga na maçã e nas frutas vermelhas, então. (16)

8- Ter equipamentos de viagem duradouros (malas, roupas de frio..)

Já foi época em que eu voltava dos Estados Unidos com uma mala gigante e de péssima qualidade só para trazer todas as bugingangas que comprei por lá. Depois de uma viagem, a mala estava pronta para ir para o lixo e o ciclo se repetia! Dê preferência a equipamentos de viagem que durem: boas malas, bons casacos de frio, bons sapatos de neve. Evite cair no ciclo de comprar coisas de má qualidade que mal aguentam o tranco de 15 dias de viagem. Se você não pretende investir em um casaco de qualidade, por exemplo, porque sabe que não vai usar muitas vezes, por que não pede emprestado para uma amiga? Alguns destinos também disponibilizam aluguel de certos equipamentos, como casacos e botas para a neve. Assim você se sente preparada para enfrentar o frio e não precisa gastar horrores numa roupa que vai usar uma vez na vida.

9- Evitar comprar souvenirs desnecessários 

Lojinhas de souvenir são sempre lotadas de bugingangas completamente inúteis, mas que procure coisas úteis que serão de fato usadas. Para quê levar 30 souvenirs do mesmo destino? Você sempre leva um monte naquelas promoções de leve 5 por 1 com a promessa de que vai presentear um monte de gente, mas sempre acabam empacados no fundo da sua gaveta. Eu, por exemplo, só compro 1 ímã de cada cidade que vou. Mais do que isso, já sinto que são coisas desnecessárias para acumular em casa. Então evite levar objetos que não sejam funcionais e não compre quantidades exageradas.

10- Turistar a pé ou de bike

O turismo desenfreado também contribui com o aumento do tráfego de veículos, afetando a qualidade do ar. Por isso, prefira turistar a pé ou de bicicleta, se possível. Além de mais sustentável, é mais saudável e você interage muito mais com o espaço urbano ou natureza. Se as distâncias forem grandes, prefira usar meios coletivos de transporte em massa como ônibus, tram e metrô. Outra ótima maneira de conhecer cidades de maneira sustentável é fazendo free walking tours – tours gratuitos que se faz caminhando e só paga a gorjeta que desejar ao guia no final.

11- Pagar pela sua emissão de carbono

Algumas companhias aéreas te dão a opção de pagar um valor compensatório pelas emissões de carbono da sua viagem. Na Europa, foi decretado que os vôos têm que compensar integralmente a emissão de carbono da viagem através de créditos de carbono. Esse dinheiro geralmente é repassado para organizações que investem em energias renováveis ou outro projetos destinados a neutralizar emissões de gás de efeito estufa. (17) Apesar de ser uma medida interessante, pode-se questionar a prática da “precificação” do carbono e sua eficiência. Mas se você for dos que acreditam que essa é uma medida eficiente para combater o aquecimento global, se jogue! Procure companhias aéreas que compensem a emissão do carbono ou contribua para as que te dão essa opção. (18)

12- Fuja do luxo e procure estabelecimentos e serviços eco-friendly

O setor do turismo tem desenvolvido uma certa dependência em meios transporte e atividades com altos gastos energéticos e acomodações cada vez mais luxuosas. (19) Viajantes de luxo consomem mais água que um viajante normal e 4 vezes mais água que a média diária de um cidadão comum europeu. Basta pensar no tanto de água que se gasta para que você tenha sempre uma toalha limpinha todos os dias. Além disso, o turismo de luxo segrega o turista da população local e faz com que esse tipo seja até pior que o turismo em massa, já que só grandes corporações se beneficiam. (20) Mais luxo, mais lixo.

Prefira serviços eco-friendly, especialmente os que são efetuados por locais que prezam por aquele lugar.

 

O grande mistério de viajar de forma sustentável é entender que você não é invisível. Você não pode nem se intrometer num habitat que não é o seu e nem se isolar da vida local e natureza. Saber respeitar e valorizar o lugar e a população sempre deve fazer parte da maneira como você pensa seu turismo. Claro que é impossível ser 100% sustentável o tempo todo, mas se informar e tomar decisões conscientes já vão te ajudar nessa empreitada. Afinal, somos responsáveis pelo turismo que praticamos. 

 

 

 


Para ler um outro post nessa linha, recomendo a leitura desse texto aqui, escrito pela Luísa do Blog Janelas Abertas.

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