Morar e estudar fora

O espetáculo da vida de quem mora fora

Esse texto não é só pra viajantes/nômades como eu, mas para todos pensarem as relações afetivas numa era cibernética de espaços físicos reduzidos e grandes distâncias emocionais.

São momentos de transição de vida como o que eu me encontro agora que entro num estado de profunda reflexão. Talvez lendo demais as entrelinhas das dinâmicas sociais que me cercam, mas sempre fui de pensar demais. Esse ano, voltei pra casa sem uma data certa pra sair. Mas com muita certeza que o faria em breve. Sabe-se lá quando. A volta pra casa sempre é cheia de expectativas. Você quer sentir a sensação de estar coberta por uma manta bem quentinha num dia frio de inverno. Encontrar pessoas de carne e osso que dão abraços que fazem felicidade se ramificar por todo o seu sistema nervoso. Sem contar com o cheiro inconfundível da mistura de tudo aquilo que te faz lembrar de casa.

Todas essas pessoas que deveriam ser a sua casa mantém contato do outro lado da tela quando você está longe. Mas o que acontece, na verdade, é que essa audiência virtual que vibra por você no cyber espaço nao é a mesma que vai te receber de braços abertos quando chegar em casa. É uma audiência que se assemelha às da televisão: existe para assistir a nossa vida do sofá, sem poder interagir com o espetáculo.

A forma como escolhi levar minha vida interessa a muitos pela ideia de liberdade, pela ideia do diferente. Uma utopia de quem se vê preso num trabalho de 8 as 18h, de quem criou raízes e se arrepende ou de quem está feliz, mas se alimenta das aventuras do imaginário da vida alheia. Mal sabem que nós compartilhamos as mesmas inseguranças e sentimos a falta constante de algo que não sabemos o quê. Queria eu que minha vida fosse tão emocionante quanto aparenta e, às vezes me pego repetindo essa dinâmica – mas juro que tento me policiar – com os que vivem a vida que eu não tenho.

Não fazem por mal e, muitas vezes, torcem genuinamente por você. Mas é a força coletiva de muitos espectadores que isolam o artista. O que a internet diminuiu dos espaços físicos, aumentou das distâncias afetivas. É possível saber o que eu comi dois anos atrás na Índia, mas impossível – mesmo que tentassem – saber como eu me sinto hoje na rua ao lado.

Na volta para casa, o espetáculo se torna mundano e comum. É mais interessante quando está distante e inalcançável. Agem como se sua vida fosse um conto de fadas e não consideram as renúncias – deixando de lado os devidos privilégios – que fazemos todos os dias para sermos livres.

Sinto falta do conceito de comunidade, de encontrar os amigos freqüentemente e depois reclamar que estou cansada deles. Só para depois saber o quanto são valiosos. Sinto falta de dar bom dia para a moça da venda de frutas que já sabe meu pedido de cor. Sinto falta de ter vizinhos aos quais posso recorrer em momentos de emergências glicêmicas – apesar de eu nunca ter batido na porta de ninguém para pedir açúcar – e retribuir olhando suas crianças num dia que precisem.

Minha comunidade é espalhada pelo mundo e, ironicamente, a internet é a única ferramenta que me permite permanecer conectada. Os momentos que alimentam a alma sao aqueles áudios de mais de 10 minutos, uma mensagem longa que eu leio e releio, um e-mail com fotos enviadas diretamente à você – e não lançadas no infinito do feed do Facebook na esperança que uma grande novidade atravesse os algoritmos e cheguem até você. Minha comunidade são as pessoas que além de audiência, são personagens do meu espetáculo. Talvez numa peça de teatro onde a audiência possa interagir e mudar o rumo da trama. Minha comunidade são espectadores, mas também são artistas itinerantes, atuando na sua própria peça. Vivem como eu e sabem do doce e amargo de não ter um lugar para chamar de casa – às vezes têm vários, às vezes nenhum. Minha comunidade também é os que levam vidas tão diferentes, mas entendem a complexidade do que vivo e eu entendo as deles.

Os cartões postais e cartas parecem ter vindo de uma outra galáxia desafiando o contínuo do espaço-tempo , digno de um filme de ficção científica. Imagina que loucura estar tocando num pedaço de papel que veio do outro lado do mundo, tem a caligrafia familiar que te faz sorrir no canto da boca e teve toda uma logística a nível internacional para chegar até você. Parece exagero, mas em tempos cibernéticos, qualquer coisa que ative o olfato e tato é como se fosse místico. O afeto físico – mesmo que em papel e caneta -, para quem mora fora, é tão raro que a gente aprende a dar valor aos mais simples gestos. Ir à papelaria, escrever a carta, ir ao correio. Tudo isso faz parecer que alguém matou três dragões para fazer aquele pedaço de carinho chegar até você.

Infelizmente, muitos não farão um esforço mínimo. Em casa, quando se tenta reestabelecer laços afetivos com amigos que ficaram pelo caminho, te respondem “vamos marcar”. Nunca marcam. E eu sei que todo mundo está na sua jornada pessoal e não tem mais tempo como antigamente. Enquanto alguns mandam cartas, escrevem e-mails, outros nem se dão o trabalho de atravessar a rua para um abraço. Mas cada um acha tempo para se dedicar ao que preze. E isso é nítido pelas pessoas que se recusam a ir embora: mesmo em espectros ideológicos distintos, diferentes timings da vida adulta ou simplesmente com interesses completamente diferentes, algumas pessoas não arredam pé. Mostram que estão aqui, independente da jornada, mas pelo que somos ou o que fomos um por outro.

Do outro lado, há os que te querem perto o suficiente para se aproveitar do que você pode oferecer.  Não me entendam mal, não estou dizendo que tenho a vida mais interessante do mundo. Mas todos temos o nosso added value – aquilo que nos faz diferente e o que trazemos para contribuir numa conversa ou numa amizade. Sabe aquele papo de meninas trazem salgado e meninos refrigerante? Eu levo minhas histórias das viagens, Ana leva sua sabedoria sobre o cosmos, Davi seus conselhos de alguém emocionalmente maduro e Alice seus insights sobre a bolsa de valores. A maneira pela qual muitos se relacionam se baseia no que o outro tem à oferecer. Estão mais preocupados em dar match entre suas necessidades pessoais e no que o outro pode fazer para supri-las. Essas pessoas não fazem questão de construir e manter uma ponte sólida de troca de sentimentos sinceros, tampouco de deixar-nos ir. Ficam presos por um fino arame, longe o suficiente para não ter obrigações afetivas e perto o suficiente para se beneficiarem do que há de melhor em você, sem precisar dar nada em troca.

Sei que não devemos nos relacionar esperando reciprocidade, mas não é justo que só exijam tua presença, sugando o que há de melhor em você, e te deixem vazia. Sem um agradecimento ou ao menos um abraço. Ninguém gosta de se doar o tempo inteiro e nunca receber algo em troca. A gente também precisa alimentar nossa própria alma.

Já parou para se perguntar quantos da sua audiência invisível do stories tomou um segundo do tempo deles pra perguntar se você tá bem, se tá feliz, para desejar feliz aniversário ou para dizer o que sente? O virtual nos trouxe soluções para a solidão, mas acabou sendo ferramenta para mais isolamento. Você sabe como o outro está – ou como ele aparenta estar – mas não necessariamente precisa lidar com os sentimentos alheios. A empatia dura 15 segundos – isso quando nos damos o trabalho de nos importar esse tanto.

Observar a vida dos outros à distância só te isola da realidade e transforma a vida do outro num triste espetáculo. Que tal ser mais responsável com as relações que mantém? Que tal ser sincero e dizer o que sente por aquele amigo que não vê há anos? Que tal bater na porta de um amigo para perguntar se ele tá bem? Que tal dizer que vai marcar e marcar MESMO?

Levante da cadeira. Desconecte-se. Atravesse a rua, pegue um avião, mande um cartão postal. Faça um esforço por quem merece. Diga o que sente. Sinta amor e sinta-se amado.

 

6 thoughts on “O espetáculo da vida de quem mora fora”

  1. Fiquei arrepiada demais em vários momentos do texto. E pude perceber como essa escolha não se encaixa na vida que quero pra mim… Por mais que em muitos momento pense: “nossa, como eu queria ser ela”. Vc é uma das poucas que escreve verdades. Obrigada!

  2. Lou, vi a sua postagem no Instagram e me interessei pelo título que deu ao texto. Resolvi vir aqui conferir! Que texto incrível e carregado de verdades! Obrigada por compartilhar conosco! Confesso que ia sair daqui sem te deixar uma mensagem, por comodismo.. mas dessa vez resolvi fazer diferente. Só para que tenha certeza que tem um público que te lê e te valoriza. Sei que é importante pra você! Beijo grande

  3. Depois de ler todo esse texto , penso: como minha filha é espetacular ? Como aproveitar sua genialidade ? Aí para para pensar e vejo que tenho um filho espetacular e também não sei como aproveitar tamanho adjetivo. Percebi que meu PAI era na verdade meu melhor amigo tarde demais , espero que meus filhos consigam perceber isso a tempo

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