Viagens para dentro

Para você que não sabe o que está fazendo da vida

Esses dias tive um breve encontro com uma menina que está cursando a mesma faculdade que eu cursei há alguns anos. Ela me pediu para sentar e contar sobre como é a vida de formada com um certo brilho nos olhos. Eu fazia o mesmo na idade dela. Olhava para os formandos e desejava chegar nesse estágio da vida onde as incertezas da faculdade não existiam mais.

Deixe eu te contar um segredo?

Um diploma não te dá certeza de nada. Você vai continuar duvidando de si e questionando suas escolhas. As preocupações passam a ser outras e você estabelece outras metas para se sentir bem-sucedida.

Eu me formei e fiquei desempregada por 6 meses. Com o diploma na mão e muito tempo livre, eu não coloquei nenhum projeto interessante em prática, mas fui tomada pela paralização causada pela ansiedade. Fiquei deprimida, duvidei das minhas escolhas e não entendia o que eu estava fazendo de errado.

Criei outra meta: fazer o mestrado. Na dificuldade de ser chamada para entrevistas, percebi que os empregos que eu queria pediam pós-graduação. Coloquei na minha cabeça que minha vida ia mudar com um mestrado e me dediquei muito a esse novo projeto.

A felicidade transbordou quando soube que tinha passado. Era como se eu tivesse zerado a vida! Eu tinha certeza que ter esse diploma ia mudar os rumos da minha vida profissional e que eu sentiria muito mais segurança no que quer que eu escolhesse fazer da vida.

Durante os dois anos de mestrado, minha vida realmente mudou. Conheci pessoas do mundo inteiro e me expus a novos temas e projetos que enriqueceram tanto meu currículo quanto o meu processo de crescimento pessoal. Estaria mentindo se dissesse que não fez diferença alguma. Porém, cá estou formada, desempregada e ainda com todas as inseguranças de antes.

Eu percebi que diploma nenhum, emprego nenhum vai me trazer paz de espírito. Descobri que você vai passar quase a vida toda sem entender o que tá fazendo, qual seu propósito – mesmo que já esteja trabalhando nele – e aonde quer chegar. Às vezes você passa um tempão fazendo análise de conjuntura de algo que só será possível de ser analisado olhando para trás. Você pode não entender, hoje, o porquê de estar fazendo o que faz, mas um dia vai conseguir olhar como um espectador de sua própria vida e compreender tudo.

A gente gosta de admirar as conquistas alheias e usá-las como metas para nossa própria vida. Você, que trabalhou a vida toda em escritórios no setor privado, inveja a liberdade do seu amigo que largou tudo para viver como nômade digital na estrada. Seu amigo que mora fora, inveja a sua estabilidade financeira e a sua relação próxima com amigos e família. Por trás do sucesso de qualquer um existem renúncias enormes que trazem questionamentos todos os dias.

Quem trabalha em home office reclama da falta do contato humano, quem vive no escritório da empresa reclama da falta de flexibilidade. Enquanto isso, nenhum dos dois está disposto a fazer as renúncias que são necessárias para ter o estilo de vida do outro. A mulher do escritório tem vale refeição, uma equipe muito maneira e a oportunidade de se relacionar com os peixes grandes da empresa. O cara do home office tem tempo de ir pro yoga, pegar os filhos na escola e mantém uma alimentação muito mais saudável.

A gente tem que entender que é ok se sentir incompleto. Você sempre vai sentir que tem algo faltando.  Não dá para abraçarmos o mundo inteiro. Entender quais são as renúncias que estamos dispostos a fazer nos ajuda a ficar em paz com as nossas escolhas.

Então se você não sabe o que tá fazendo da vida, pode ter certeza que a maioria das pessoas não sabem. Até quem, aparentemente, tem um emprego dos sonhos, se questiona se deveria estar ali. Se não deveria largar tudo para ir tirar um ano sabático. A mulher que escolheu ser mãe full-time se questiona se é tarde demais para voltar ao mercado de trabalho.

Não dá para criarmos um ranking de sucesso. Ambição para uns é ter muito dinheiro, para outros é poder chegar em casa e brincar com os filhos ou nunca ter filhos e emprego certo, mas viajar o mundo.

Entenda quais são suas prioridades! Muita gente acha que minha vida é um sonho porque eu conheço muitos lugares. E de certa forma, é um sonho para mim também. Mas por trás das fotos bonitas do Instagram existe muita dúvida, muita ansiedade, muitos “e se…”. Tenho amigos sendo promovidos a cargos sênior, outros casando e tendo filhos. Eles estão muito felizes e conseguindo coisas que, talvez, eu jamais conseguirei – ou talvez terei que esperar uns bons anos. Mas eu estou vivendo a vida que quis para mim, mesmo que isso signifique ver meus pais por Skype 11 meses ao ano ou não participar da vida dos meus amigos o tanto que gostaria.

Recentemente postei que eu não sabia o que eu estava fazendo da minha vida nessa fase pós mestrado-desempregada e fiquei surpresa com as pessoas que me disseram: “Relaxa, eu também não sei”. Foram desde pessoas bem mais novas, até pessoas cujas vidas profissionais eu sempre admirei. Pessoas com negócio próprio e muito dinheiro, pessoas que têm emprego público, pessoas que estão mudando de profissão, pessoas que formaram as famílias mais lindas que vemos aqui na internet.

Resumindo: sucesso nenhum vai te dar a certeza e plenitude que você aspira. Todo ser humano precisa de experiências novas. Precisamos tentar para ter certeza que não é aquilo. Precisamos fracassar para ter a certeza que conseguimos fazer de novo. Precisamos ter sucesso para entender que, na verdade, nossa ideia de sucesso é outro.

Olha, tá todo mundo meio perdido. Meio sem saber o que está fazendo.

E tá tudo bem.

Você tem a vida toda para descobrir. Não dependa disso para se sentir feliz.

2 thoughts on “Para você que não sabe o que está fazendo da vida”

  1. Toda vez que vc fala de “casando e filhos” eu olho pra mim mesma. Quisera eu saber o que estou fazendo. Hahahaha.
    Agora mesmo, estou num trânsito fdp dentro de um ônibus pensando sobre o meu pré projeto de mestrado, imaginando que poderia estar morando bem longe daqui e me preocupando em criar meu filho longe desse caos.
    A gente nunca sabe.

  2. Acabei de fazer minha primeira viagem sozinha e voltei com gosto de quero mais, mas ao mesmo tempo gostaria de ir ido alguém comigo, rss. Na vdd me sinto muito contraditória às vzs, moro sozinha e amo, mas tb gostaria de ter alguém pra amar e dividir a vida. Enfim, é assim mesmo, but, but, na dúvida vou vivendo cada momento e sendo feliz com o que a vida me apresenta.

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