Morar e estudar fora

Sobre morar fora: preconceitos e frescuras que perdemos longe de casa

Não é novidade para ninguém que morar fora é uma experiência que vai te virar do avesso. Novas culturas, língua, hábitos, clima. Tudo, por mais que se assemelhe, é diferente e te tira da zona de conforto.No começo, eu sempre procurava viver como brasileira o tempo todo. Procurava a cabeleireira/ manicure brasileira, restaurante brasileiro, me restringia a andar com brasileiros. Mas peraí! Morar fora não é trazer o Brasil consigo. Claro que devemos sempre manter nossas raízes, comer um feijãozinho de vez em quando e bater um papo no nosso bom e velho português. No entanto, temos que estar abertos ao que essa nova vida nos proporciona. Experimentar o diferente, apropriar o que aquela cultura tem de melhor  (mas não no sentido da expressão “apropriação cultural”, que é papo pra outro texto).

O engraçado é como, quando estamos no Brasil, tendemos a achar defeito em tudo da nossa cultura. Mas é só ir pra fora que começa a sentir saudade do nosso jeitinho para resolver as coisas. Sempre pensava: “Meu Deus, quanta burocracia! No Brasil já teria dado um jeito!”. Mas existe uma razão pros procedimentos serem diferentes e burocráticos: transparência, gratuidade, ética. O que também não significa que é melhor. É uma maneira diferente de se fazer a mesma coisa.

Porém, com o tempo, morre a ideia hierárquica de que tudo que vem do Brasil ou do jeito que fazemos no Brasil é superior ao novo. Pega-se um gostinho ao novo misturado com o que já conhecemos.

No meio dessa revira-volta é que, ao experimentarmos o mundo, vamos lentamente desconstruindo conceitos do que é certo e errado. E vamos descobrindo que todo mundo que vive fora é um quebra-cabeça em que cada peça é um hábito, uma herança, um resquício das aventuras que viveu. Se veste com as roupas que comprou na Índia, tem o vocabulário de três lugares diferentes, sotaques que mudam de acordo com quem fala, toma mais ou menos banhos dependendo do tempo, almoçar sanduíche ou feijão com arroz são duas opções aceitáveis, dá três beijinhos porque aprendeu no Sul que é pra casar. Somos a mistura desses pequenos momentos que vivemos e fomos aprendendo a gostar, ou apenas nos acostumamos.

Falando nesses pequenos preconceitos e frescuras que vamos perdendo, listo aqui alguns outros que com certeza, se você mora fora, vai entender o que to dizendo:

1- Padrões de beleza e relacionamentos

Pra quem nasceu no Rio, onde as pessoas têm uma obsessão com corpos, foi bem diferente ver que em países como a Inglaterra, um corpo “sarado” e “magro” não é um fator muito importante na hora de se relacionar. O fato de que afeto e atração pode estar além do físico foi algo que revolucionou a maneira como olho as pessoas. Depois de morar em lugares onde as fisionomias são tão distintas do Brasil, comecei a saber apreciar tipos diferentes de beleza e passei de alguém que só se relacionava com caras brancos de cabelo escuro para ter crush de todos os continentes. Percebi que nosso ponto de referência é o que é comum pra gente. Você acha alguém bonito e manda foto para as amigas pedindo opinião, elas julgam baseado no padrão de beleza que elas estão acostumadas. “Mas gringo é estranho, se veste esquisito, usa muito gel, é muito alto, muito peludo, bla bla “.  A presunção de quem não vê que não tem nada de esquisito é clara. As pessoas são diferentes. Ponto. E quando você passa a conviver com todo o tipo de gente, você perde essa referência de beleza na qual você foi socializado. Morando fora, perdi bastante essa referência e “beleza” virou um conceito muito mais amplo, enquadrando muito mais diversidade étnica, de corpos, modo de se vestir, maneira de agir, cores, simetrias, e até a famosa “pegada” que tá muito enganado quem pensa que só do brasileiro que é boa.

2- Sotaques

Já foi época em que você ria dos sotaques diferentes. Depois que você vive num ambiente internacional, você entende o quão difícil é se comunicar o tempo todo numa língua diferente da sua. Saber falar bem outro idioma é um privilégio! E nada me tira mais do sério do que alguém que só fala uma língua, rir do meu inglês, do meu sotaque ou de algum erro que cometi.  Escutei muito de amigos e conhecidos que o sotaque da Índia é “horroroso”. Depois de ter morado lá 6 meses, o sotaque é um detalhe tão insignificante e tão normal, que não consigo entender de onde tiraram essa opinião. No Brasil, nosso inglês é muito influenciado pelo inglês americano e tendemos a achar que esse é o “sotaque normal” do inglês, quando na verdade é apenas um no meio de muitos outros. Outra coisa: não dá pra comparar a capacidade de um brasileiro e um coreano de aprender o espanhol, por exemplo. Há uma clara vantagem entre nacionalidades com línguas da mesma família e não dá pra comparar com o sotaque de alguém que nunca foi exposto àqueles fonemas anteriormente. Então, a próxima vez que escutar um sotaque que não soa familiar, em vez de achar graça, pense no tamanho esforço que é aprender um outro idioma e se comunicar através dele num contexto diferente do seu.

3- Religiões ou costumes diferentes

Existem muitas religiões que eu nunca havia tido nenhum contato antes de sair do Brasil. Nosso país é predominantemente cristão e não temos tanta influência de outras grandes religiões como o Islã e o Hindu. Desde que vim morar fora, conversei por 5 horas num barco com Testemunhas de Jeová, celebrei Eid Mubarak e quebrei o jejum com amigos no Ramadan, peguei fila no templo para receber benção de Shiva, comi refeições Jeins (que não comem nada que cresça de baixo da terra: batatas, alho, cebola, beterraba e nada que você “mate” uma vida para se alimentar), ganhei souvenirs budistas de amigos, fui à missa católica, bati papo sobre Umbanda. Quando se convive com o diferente, aprende-se a respeitar a diversidade. Lembro de quando eu era criança e viajei com minha família para Paraty junto de outras famílias brasileiras e uma família egípcia que morava no Brasil. Mohammed é muçulmano. Nós pedimos pizza de calabresa para todos. Mohammed se sentiu super ofendido e foi embora antes do combinado. Na época, não entendemos o porquê. Mas é a nossa ignorância que afasta. O simples fato que não levamos um minuto para entender sua religião e as possíveis restrições foi motivo de mágoa. Só agora, anos luz depois, entendo que não custa nada perguntar, conversar e entender as práticas religiosas diferentes. Ninguém nasce sabendo, mas não dói ter consideração. A maior vantagem é que você acaba celebrando mais feriados com seus amigos. E celebração nunca é demais, né?

4- Música

Passe uma temporada fora e verá como suas playlists vão voltar diferentes. Música para mim é tipo um souvenir que vivo trocando com os amigos. Te indico um sambinha, tu me indica um dubstep indiano ou uma música folclórica búlgara. Quer maneira mais gostosa de conhecer coisas novas? Essa é uma das frescuras mais fáceis de perder quando você mora fora!

5- Comida

Tá aí uma coisa que todo brasileiro concorda: comida brasileira é boa demais da conta! As primeiras vezes que viajamos é comum estranhar sabores diferentes, mas com o tempo você se acostuma. No Brasil, temos costume de comer comida típica todo dia. Arroz, feijão, farofa. Em alguns países da Europa, por exemplo, tem mais restaurante de outras nacionalidades do que do próprio país. É normal por aqui, quando queremos decidir onde comer no fim de semana, perguntar pelo país: “Vamos comer chinês, turco, nepalês, peruano ou polonês?”. Experimentar cozinhas diferentes acaba virando um hobby e a gente aprende que, apesar da comida brasileira ser sim uma delícia, existe um infinito de sabores diferentes! Na Índia, a culinária também era mais local e cheia de temperos, o que pode ser um desânimo pros brasileiros que não curtem pimenta. Só que na Índia, cozinhar sem pimenta é algo inaceitável e eles acham que a nossa comida não tem gosto nenhum. Ou seja, gostar ou não da culinária de um certo lugar é apenas questão de costume. Se eles se acostumam com nossa “comida sem gosto”, a gente também se acostuma com a comida cheia de sabores e pimenta. Não se limite! Experimente todas a comidas que tiver a oportunidade e descubra um mundo novo de sabores.

6- Acumular bens materias

Quem mora fora, principalmente quem não mora no mesmo lugar por muito tempo, aprende que a sua vida inteira tem que caber em 2 malas de 23kg. Você descobre que não precisa de mais da metade de coisas que junta em casa porque um dia “pode precisar”. Perde-se a vontade desenfreada de comprar coisas novas e você pensa muito antes de tomar uma decisão de fazer uma compra. Cabe na minha mala? Vou usar isso com frequência? Consigo vender, se precisar? Gastar com experiências se torna mais importante do que acumular bens desnecessários.

7- Hábitos de higiene

Tomar banho todo dia num frio de -15C? Sem querer se enganar, mas sempre vai ter um dia que você vai ceder e sucumbir a um dia sem banho. Quando tá muito frio, tá perdoado! E banheiros diferentes? Quem já passou pela Ásia sabe que em alguns países o vaso é um buraco no chão, até dentro de apartamentos modernos. Não tem outro jeito: seja na estrada ou em casa, vai ter que agachar pra fazer suas necessidades com estilo e mira certeira. Já pensou o que fazer na falta do papel higiênico? Pois em alguns lugares eles são totalmente dispensáveis e as pessoas se lavam com a mão – na Índia tem que ser a esquerda, pois a direita é a mão que se come. Se você tá fazendo cara de nojinho enquanto lê isso, saiba que, para eles, o nojento é você que esfrega papel higiênico e só espalha as fezes ao invés de limpar direitinho com água e sabão e depois higienizar as mãos. Não interessa o que você acha certo ou errado porque – adivinhe: NÃO HÁ CERTO OU ERRADO. Tá todo mundo vivendo bem seja os que limpam o bumbum com sabão ou papel higiênico e, se você acha que é superior porque faz de um jeito e não de outro, vai ter dois problemas: ficar com nojo e desficar.

8- Cuidados com a saúde

Só Deus sabe minhas batalhas ferrenhas com a NHS – sistema de saúde britânico – e com as clínicas privadas Holandesas. Nutella que sou, acostumada com plano de saúde no Brasil, achei um absurdo esse negócio de você não poder ir direto no especialista e precisar passar pelo médico geral sempre que sentir algo. Mas com o tempo aprendi que isso torna tudo mais fácil, porque a maioria dos problemas são mínimos e uma consulta com o médico geral resolve. Se precisar investigar mais, ele passará para um especialista ou hospital. Também não têm exame de rotina à rodo que nem fazemos no Brasil, muitas vezes desnecessários. O papanicolau na Inglaterra só é realizado nas mulheres à partir de 25 anos e depois existe um período de 2 anos em que pode-se repeti-lo. Isso se dá porque a doença mais comum que identificam com esse exame é o HPV, que é um vírus que se contrai principalmente pelo sexo e se manifesta anos depois de terem contato com o mesmo. Isso evita que meninas novas, principalmente as virgens, sejam submetidas a exames invasivos já que outras DSTs podem ser detectadas por outros procedimentos. Já no Brasil sempre me falaram que eu deveria fazer de 6 em 6 meses por “prevenção” desde que tenho 12 anos! Meu palpite é que no Brasil, por ser sistema privado, ganha-se dinheiro toda vez que se aciona o seguro. Então quanto mais, melhor. Ou seja, não chega achando que só porque no Brasil você faria exame X mais facilmente que lá é melhor. Os sistemas de saúde são diferentes e têm suas razões para ser.

9- Síndrome do vira-lata

De todos esses preconceitos e frescuras que vai desconstruir, esse é o mais doido. Sabe todas aquelas coisas que você sempre odiou sobre o seu país de origem? Pois é, vai ser na distância de casa que você vai aprender a valorizar a sua cultura e seus costumes. Vai aprender que só quem pode falar mal do seu país é você e ninguém mais. E que tem um bocado de coisa que você nem imaginou que sentiria falta, mas sente todo dia. Além de você se apaixonar por novos lugares, vai se reconciliar com o lugar de onde veio e aprender a viver com saudade das coisas boas que deixou para trás.

Morar fora é uma escola interminável de desconstrução e você tem que estar sempre aberto à mudar de ideia. Porque acredite: você vai! Como sempre falo, o mundo não é preto e branco, não é uma moeda com dois lados. Entenda e respeite as diferenças e aprenda a se adaptar aos desafios que encontrar pelo caminho. Mude todo seu armário, seu sotaque, seu prato favorito e até de namorado. Prepare-se para ser outra pessoa, mas ainda assim ser a você de sempre. Uma misturinha gostosa.

 

3 thoughts on “Sobre morar fora: preconceitos e frescuras que perdemos longe de casa”

  1. “Ficar com nojo e desficar” eu amo usar “desficar”! Adorei essr texto. Acho wue além disso tudo ser proporcionado pot viagens, também vem com a maturidade!

  2. Concordo com tudo, exceto que as coisas são menos burocráticas no Brasil.
    Planos de saúde como os nossos, acho que em nenhum lugar do mundo!

    1. Parece brincadeira né, mas também estou sofrendo muito com a burocracia fora do Brasil e sempre penso “no Poupatempo já estaria pronto” kkkkk

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