Viagens para dentro

Você só conhece alguém de verdade quando viajam juntos

Eu costumo dizer que você só conhece alguém de verdade depois que viajam juntos. Já viajei com amigos muito próximos que de cara soube que a viagem beiraria o fracasso. Também descobri mais sobre a vida de um completo estranho com quem passei 5 dias do que sei da vida dos meus parentes. Não importa o grau da relação, você sempre  vai ter uma experiência mais intensa com aqueles que dividirem a estrada contigo. E vou te contar, não é fácil achar alguém com quem você se identifique 100%.

Acho que por conta disso sempre fui a maior defensora das viagens sozinhas. Ainda sou, na verdade. Na vida nós nascemos e morremos sozinho e temos que aprender a ser inteiros e suficientes. Poder ficar um dia inteiro em silêncio com seus pensamentos e curtir cada momento. Porém, isso não significa que temos que ser sozinhos o tempo inteiro. Precisamos de seres humanos. Não para nos completar, mas pra somar. E é por isso que é difícil viajar com alguém: você tem que achar alguém que não te anule, só seja bônus.

Poder dividir seu tempo com alguém que é ao mesmo tempo inteiro e companheiro é uma sorte tamanha! E pra conhecer alguém afundo dessa maneira não tem mistério: viaje com essa pessoa!

Isso me lembra uma história bem legal.

Mãos suando, coração acelerado, pés inquietos.

Essa era eu esperando na estação o homem, que até então era apenas amigo, mas em breve tornaria-se namorado. A gente se conhecia há 3 anos, desde que morei na Inglaterra pela última vez e mantemos o contato todo esse tempo como bons amigos, geralmente falando das conquistas futebolísticas do Liverpool F.C. e dividindo algumas das nossas conquistas. Namoramos outras pessoas, vivemos nossas vidas e nunca achamos que nos encontraríamos de novo.

Até que aconteceu. Passei num mestrado que apliquei sem esperança. Um ano na Holanda, um na Inglaterra. Ainda na Holanda, em uma de nossas conversas, o convidei para uma visita – assim como faço com todos meus amigos que moram relativamente perto. Foi um gesto de simpatia, mas na mesma hora ele concordou. Comprou a passagem e foi.

4 dias, nós dois, muito papo pra colocar em dia, uma surpresa boa. O momento do adeus chegou a doer. Com lágrimas nos olhos, fiquei paralisada vendo o trem sair lentamente da plataforma. Acho que foi ali que percebemos que precisávamos de outros encontros.

Em menos de 3 meses fui até ele. Outra viagem. Depois disso, em mais 3 meses, fizemos uma viagem juntos para a Croácia. Dessa vez foram mais dias e uma certeza maior que queríamos apostar um no outro. Costumo dizer que foi numa porrada só que aprendemos a ser casal. Na primeira vez ele conheceu meus amigos, na segunda conheci seus pais, na terceira conhecemos um ao outro. Depois, me mudei pra Inglaterra, e passamos a viajar todo fim de semana para visitar um ao outro, já que não moramos na mesma cidade. Viajar é nossa norma. A única maneira de nos conectarmos. Tem quem ache estranho e não curta, mas pra gente foi do jeito certo na hora certa.

Namorar é fácil quando se tem seu próprio espaço e limites. Você vai na casa dele e sai a hora que quer, faz suas próprias coisas. Durante a semana, tem sua própria rotina: acorda a hora que quer, toma quantos banhos quiser, come o que der vontade. Não transparece suas manias porque não dá tempo. Não dividem o banheiro e não se irritam com a tampa do vaso levantada ou com o tempo que o outro demora pra tomar banho. Não têm que decidir todo o dia o horário de dormir, de acordar e a programação do dia.

Conosco aconteceu de forma um tanto diferente. Por todo encontro ser uma viagem – seja curta ou longa – precisamos aprender a chegar num consenso do que é melhor para os dois. Decidir onde, debater sobre dias mais convenientes, lugares mais interessantes, limites de orçamento. Conseguimos administrar tudo muito bem. Nas viagens, é preciso decidir o que se vai fazer: Museu ou praia? Bater perna ou sentar pra tomar uma cerveja? Vamos achar um banheiro? Ficar em casa e assistir Netflix ou sair pra aproveitar o dia? Comer no restaurante legal ou comer qualquer porcaria que seja barata? Vamos pagar pra entrar aqui ou só tirar uma foto do lado de fora? Preciso fazer xixi de novo.

 

“Deixa eu tomar banho primeiro! Preciso secar o cabelo!”. Acorda cedo hoje, acorda mais tarde amanhã. Limita sua bagunça a apenas um espaço físico pra não incomodar o outro. Espera ele fazer a barba. Espera ela se maquiar. Divide o desodorante, shampoo e pasta de dente porque dá muito trabalho carregar dois. Um dia descobre quem ronca, no outro descobre que – SURPRESA – o outro solta pum. E faz cocô também. Pronto! Já ultrapassamos mais barreiras que muitos casais.

E não é que o outro tem manias? Ele dobra as roupas com muita cautela. Ela sempre deixa um dedinho da bebida no copo e nunca termina. Ela gosta de andar pela cidade, ele gosta de tomar uma cerveja num lugar legal. Hoje é jantar chique, amanhã é McDonalds. Coloca 20 e eu coloco 20 e vamos gastando juntos. Você fica com os ingressos, é mais responsável. Deixa que eu negocio, tenho mais lábia. Você imprimiu o cartão de embarque? Eu carrego a bandeja, você é muito desastrada. Carrega minha bolsa? Tá pesada. Quero uma foto. Essa tá boa, mas tira outra só pra ter certeza? Olha minha mala, preciso ir ao banheiro! Não atravessa ainda, tá vindo carro. Me busca na estação?

Viajar é um curso intensivo de como se relacionar. É conhecer alguém do avesso. Suas manias, defeitos e virtudes. É saber conciliar vontades, dividir tarefas e compartilhar responsabilidades. É estar de acordo e aprender a amar a pessoa 24 horas por dia pelo que ela é.

Você pode namorar alguém por anos e fugir de situações como essas. Mas experimenta viajar com alguém para você ver como que essa pessoa muda nos seus olhos. Não precisa ser namorado! Qualquer um! Morei anos com meu pai e reconheço que não somos bons parceiros de viagens, mas ele e minha mãe são. E é por isso que estão juntos há 26 anos!

Por essas e outras que sempre gostei muito de viajar sozinha – e ainda gosto! Porque encontrar uma boa parceria de viagens é algo raro! Sempre vai ter um atrito, uma discordância. Mas tudo bem, acontece. A amizade continua. Mas já pensou que louco encontrar alguém que faça você se sentir tão bem quanto você se sente quando está sozinha? Vou te falar uma coisa: o dia que você amar viajar com alguém, não deixe essa pessoa fugir nunca mais! Dobra ela bem direitinho e coloca dentro da mala porque é item indispensável!

Olha, essa história não é a minha única. Tenho amigos os quais só conheci através de viagem e que em poucos dias firmei laços que não há quem explique. E amigos antigos que só me reaproximei quando nos encontramos do outro lado do mundo. Você senta no bar, divide uma bebida, conta da sua vida. Descansa na praia, fala das suas inseguranças. Vai ver o por do sol e escuta uma história de amor impossível. Sai para caminhar e descobre o senso de humor incrível do outro. Visita um museu e descobre a sensibilidade escondida por trás de toda aquela fortaleza. Vai num pico bem alto ver uma vista panorâmica e escuta sobre outras perspectivas do mundo. Senta do lado de alguém no ônibus e escuta suas aspirações para o futuro.

Há quem diga que nós viajantes somos livres e desapegados, mas a verdade é que estamos criando raízes por todos os lugares e pessoas pelos quais passamos.  Somos João e Maria que em vez de migalhas de pão, deixamos sementes pra trás. Plantando amigos e amores pelo caminho.

Viajar une pessoas. Faz de nós seres mais compreensíveis, sensíveis, tolerantes. É como se fosse um segredo onde só quem lá esteve conhece a verdadeira versão de você. É poderoso e perigoso ao mesmo tempo. É cru e autêntico. É como ser livro aberto e permitir que alguém deixe sua dedicatória: “Estive aqui. Nunca vou esquecer do que vivemos juntos. Obrigada por existir.”

 

4 thoughts on “Você só conhece alguém de verdade quando viajam juntos”

  1. descobriu pq estamos juntos esse tempo todo, quanto a viajar comigo , quando vc tiver seus filhos, sua visão sobre isso irá mudar radicalmente e, quando eu não estiver mais aqui e vc sentir saudades de mim , vc saberá como sinto falta do meu pai e quantas coisas deixei de aproveitar junto dele por mero capricho meu .
    Descubra tudo que vc puder nessa vida , sempre levando os ensinamentos de sua mãe (que é de outro mundo ), pense :- o que eu faria se fosse minha mãe ? Depois que fiz isso , minha vida melhorou muito .

  2. No dia que o Henrique disser que nasceu sozinho, eu vou dar um beliscão nele por cada contração que eu senti! Hahahaha.

    Adorei o texto, viajar com alguém é conhece-la em todos os sentidos. Medos, inseguranças e pontos fortes!

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