Morar e estudar fora Women on the move

Quando seu sonho de estudar fora vale todo esforço – Raquel Bonelli para Women on The Move

Raquel na Universidade de Sussex

 

Você também tem o sonho de estudar fora? Senta aí que lá vem textão e muita inspiração para o seu sonho virar realidade! (Spoiler: tem dicas super importantes no fim do texto!)

Foi lá pelos meus 13 anos que eu conheci a Raquel. Mal sabia que nossa amizade ia ser tão importante e ia ser fundamental pra crescermos profissionalmente e pessoalmente. Sabe aquela amizade que toda mulher devia ter? Que te inspira, te motiva e sabe mostrar o que você tem de melhor?

Duas leitoras assíduas, decidimos juntas – mas não por causa da outra – que iríamos estudar comunicação. Mudamos de ideia mais ou menos na mesma época, e por coincidência terminamos as duas estudando Relações Internacionais. Cada uma foi para uma área diferente, mas sempre rolou um overlap que nos permitiu trocar muita figurinha sobre nossas paixões e profissões.

Eu e Raquel em York, onde eu moro

Mas se tem uma coisa que eu preciso destacar sobre ela, é a jornada em que ela se meteu pra realizar um sonho que um dia sonhamos juntas. Depois de muita gente desacreditar, de achar que o dinheiro que tinha não daria e de achar até que não era capaz, ela finalmente conseguiu. Está cursando seu mestrado em Mudanças Climáticas, Desenvolvimento e Políticas na Universidade de Sussex, a 1ª universidade DO MUNDO no ranking da área de Development Studies que fica em Brighton, sul da Inglaterra.

Quer saber como ela conseguiu esse sonho que parecia tão distante? Então vamos começar do começo!

Once Upon a Trip: Comecemos com a pergunta do projeto! Por que você se considera uma mulher “on the move”?
Raquel: Eu gosto da experiência de me redescobrir em lugares novos. Quando você sai da sua zona de conforto, do lugar onde você conhece tudo e todo mundo, você enfrenta desafios que colaboram muito para o seu amadurecimento. Eu gosto da sensação de conhecer novas pessoas, novos lugares, criar uma nova rotina, estabelecer vínculos e enfrentar os desafios que vem com isso. Eu acho que viver em novos lugares é mais do que viajar, é realmente um processo de amadurecimento pessoal.

Once Upon a Trip: Você se lembra quando surgiu a ideia de ter uma experiência fora do Brasil?
Raquel: “A ideia de ter uma experiência surgiu quando eu estava fazendo curso de inglês no Brasil e me deu vontade de viajar e conhecer aquele lugar que a gente tanto falava no curso. Eu pedi a minha mãe, quando eu tinha 15 anos, para poder viajar e fazer um curso fora do país, mas ela dizia que eu era muito nova para viajar sozinha. Como meus pais nunca viajaram para fora do país, para eles não fazia muito sentido querer ir pra fora ou estudar fora.”

 

Cambridge

Quando completou 19, ela teve a oportunidade de ir pra Cambridge estudar inglês e história britânica por 10 semanas. Logo depois do fim de um namoro, ela se apaixonou novamente, dessa vez por um lugar. A animação foi tanta que os amigos começaram a identificá-la como UK freak também e acabavam dando presentes com bandeiras da Inglaterra e tudo relacionado. O seu quarto é a prova disso: bandeiras da Union flag, cartões postais, bonecos da família real e MUITOS livros. E desde então ela teve a certeza que queria voltar pra morar na Inglaterra e começou a juntar dinheiro desde já para isso.

Raquel em Londres quando foi pra Cambridge estudar inglês

Once Upon a Trip: Há quanto tempo você planejava seu mestrado no UK?
Raquel: “Em 2012, quando eu voltei de Cambridge, eu comecei a trabalhar para juntar dinheiro para voltar e estudar inglês de novo. Até que em outubro, eu fui em uma feira de universidades britânicas e fiquei muito animada em passar 1 ano no Reino Unido estudando. Eu estava começando a graduação, eu não sabia o que queria estudar depois, mas tinha certeza que queria fazer mestrado no UK. Eu tive a ideia 5 anos antes de vir pra cá, eu entrei nos sites e pesquisei o que precisava fazer, quanto de dinheiro precisava ter.

Once Upon a Trip: Quais foram os esforços que você fez para atingir esse objetivo?
Raquel: “Como eu não tive o apoio dos meus pais por um bom tempo, meu pai começou a passar por situações financeiras difíceis e parou de me sustentar, minha mãe não tinha dinheiro para me sustentar no UK por ano, eu decidi que teria que fazer por mim mesma. Eu trabalhei em loja de shopping em 2012 por 9 meses (principalmente quando a minha faculdade entrou em greve e eu podia pegar mais turnos), depois voltei para o Natal em 2013 e em 2014. Em 2014, eu conciliei com o estágio no Consulado Britânico.”

Estágio no Consulado Britânico

Eu ia para faculdade de manhã, para o consulado a tarde e trabalhava no shopping a noite e nos fins de semana. Juntava cada dinheiro que ganhava de aniversário e Natal nos últimos 5 anos. Em 2014 comecei a trabalhar em feiras de universidades como freelancer, foram 7 feiras nos últimos anos. Também em 2015, cônsul britânico perguntou aos estagiários se alguém tinha interesse em ser babá dos filhos dele quando ele precisasse, eu aceitei na hora. A maioria dos dias era sábados ou sextas a noite, mas eu estava disponível sempre que ele precisava. Fui babá durante o Carnaval, domingos a tarde, dias de semana, Olimpíadas e remanejava qualquer compromisso que eu tinha só para ir. Mesmo depois que eu saí do Consulado e arrumei outro emprego, eles continuavam me chamando para cuidar dos filhos deles. Me indicaram para outras pessoas que também me chamaram.”

“Em 2016, eu consegui outro trabalho de freelancer como fiscal de prova do IELTS. Como eu trabalhava durante a semana, eu só podia pegar o trabalho aos sábados (de 7 da manhã as 5 da tarde, seguindo as vezes por turno de babá). Quando era uma sessão de prova grande, eu fazia hora extra no trabalho para tirar o dia de folga e ser fiscal de prova. Tanto no meu estágio no Consulado quanto no meu trabalho pós formada eu juntava 3/4 do ganhava. Assim que caia na minha conta, eu jogava para a minha poupança.

 

Uma das feiras de intercâmbio que ela trabalhou de freelancer

 

“Olhando em retrospectiva, eu vejo que deixei de sair muitas vezes ou porque estava ocupada, ou cansada ou apenas não queria gastar dinheiro. Principalmente no último ano que eu aceitei muitos trabalhos extras para juntar ainda mais dinheiro, mas no final, eu juntei mais dinheiro do que tinha planejado, o que me garante um pouco mais de conforto para aproveitar minha estadia aqui.”

Once Upon a Trip: E quais obstáculos você teve que enfrentar nessa jornada?
Raquel: “Sempre teremos obstáculos. No início eu não tinha o apoio dos meus pais ou da minha família. Meus amigos não levavam a sério a minha ideia. Poucas pessoas realmente acreditaram que seria possível. Eu mesma por um breve período de tempo pensei em desistir, achava que seria impossível ter 100 mil reais para vir estudar. Lembro que no dia que eu disse para as minhas amigas que eu estava desistindo, eu recebi um e-mail de uma mulher que estava vindo ao Brasil e queria que eu ficasse de babá das filhas dela. Eu tinha sido indicada por uma pessoa do Consulado e ela precisava de alguém. Coincidentemente, ela é professora da Universidade de Sussex. Achei que era coincidência demais e conversando com ela, tive mais estímulos para continuar.
O obstáculo final foi o visto. Eu enviei um extrato bancário que só cobria 26 dias ao invés dos 28 dias exigidos e meu visto foi negado. Foi o momento que eu pensei que não aconteceria, que eu tinha percorrido todo aquele caminho e não daria certo. Eu fiquei bem arrasada por um tempo, mas muitas pessoas foram grandes apoios. Minha mãe, que estava feliz por mim, me ajudou a pagar novamente o visto e me deu todo apoio que precisava. Disse que estava muito orgulhosa de mim e que tudo iria ficar bem. A faculdade demorou 15 dias para me enviar um novo documento, eu pedi visto de emergência e foi um mês a base de remédios para a minha ansiedade. 1 semana antes do vôo, o visto chegou e eu não parava de chorar, mas a ficha só realmente caiu quando entrei no país.

Bom, apesar de todas as adversidades, ela foi aceita rapidamente e ganhou uma bolsa que cobre a maior parte dos gastos. Todo seu esforço foi reconhecido e ela está se especializando numa área que já estava trabalhando desde formada.

Recebendo a bolsa de estudos

Sobre os próximos passos ainda não tem muita certeza, mas está aberta à possibilidade de voltar pro Brasil tanto quanto à de continuar na estrada e talvez tentar um doutorado na mesma área. A única possibilidade que ela não considera é voltar pro Rio de Janeiro, onde apesar de ser uma cidade linda, é muito caótica, violenta e cara. Sem contar que nunca foi muito fã do calor. No fundo, sempre soubemos que ela tem mais vocação pra ser inglesa do que brasileira.

Once Upon a Trip: Se você pudesse dar um conselho a quem quer também fazer um mestrado fora, qual seria?
Raquel: “Planejamento e foco é tudo. Fazer um mestrado fora não é algo simples, mesmo se você tiver um bom apoio financeiro, porque é um processo longo de submeter a sua aplicação, dar entrada nos documentos, ajeitar a mudança, procurar locais para morar, etc.”

 

O time de rugby feminino de Sussex do qual ela agora faz parte

 

Agora, olhando para trás, ela consegue entender todo esse trajeto e como as pequenas conquistas a trouxeram para esse momento atual. Triste porque não conseguiu um estágio que queria em 2014, logo foi surpreendida com o estágio no Consulado Britânico, que abriu muitas portas para ela. Descobriu a área em que queria trabalhar, pessoas que a guiaram nesse caminho pós-formada. Inclusive, sua chefe da época lhe apresentou outra mulher que seria depois sua nova chefe no CEBDS (Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável)! No consulado ela também conheceu uma família incrível que deu a oportunidade para ela trabalhar como babá de seus filhos e, por coincidência, eles estão morando na Inglaterra agora bem pertinho dela.

No fim da faculdade, ela ganhou um prêmio da Delegação da União Europeia pela sua monografia. Logo depois, conseguiu seu novo emprego no CEBDS trabalhando com outras mulheres fortes e inteligentes, sempre prontas a ajudá-la. Lá, começou a trabalhar com a Agência de Cooperação Alemã, em um projeto sobre Títulos Verde (green bonds), e viu uma oportunidade de escrever um livro com eles. “Pedi, pedi muito que me deixassem fazer. Deixaram e eu tive a oportunidade de em 2017 lançar esse livro na COP23 em Bonn, onde o CEBDS me chamou para ser ajudante, já que eu agora moro perto da Alemanha.”

“Todas essas experiências contaram pontos para a minha admissão em Sussex e pensando em retrospectiva, tudo foi aconteceu em estilo dominó, uma experiência interligada a outra. Não é um mundo cor de rosas, não é tudo tão fácil, tem uns perrengues, tem medo, cansaço, etc. Mas, hoje, sinto aquela sensação boa de quando você vai dormir, coloca a cabeça no travesseiro e pensa como genuinamente você está feliz.

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Não tem receita do bolo, mas essas são as dicas mais objetivas que podemos dar a vocês:

  • Quanto de dinheiro preciso para fazer um mestrado de um ano na Inglaterra somando todos os gastos?
    • A anuidade do mestrado fica por volta de 8.500 libras para quem tem passaporte europeu  (e mora na Europa por mais de 3 anos) e 15 mil libras para quem é aluno internacional. O aluguel de 12 meses por volta de 4.800 libras. Com 300 libras por mês você consegue viver sem muitos confortos, com 500 libras você vive bem. Passagens de ida e volta para Londres podem varias de 500 a 800 libras dependendo da época.
  • Quanto tempo antes tenho que me preparar?
    • Pelo menos 2 anos antes para ter tempo de fazer o exame de proficiência e preparar a documentação. Mas tudo depende de quanto dinheiro você tem e quanto levará para juntar o necessário.
  • Quando começam os processos de application?
    • Geralmente em setembro você já tem que ficar de olho e com tudo preparado. Lá pra outubro abrem os processos e a deadline costuma ser lá pra maio, mas se você tá pensando em aplicar pra bolsa, aplique o mais cedo possível. Até o fim do ano saem os primeiros resultados de quem aplicou cedo – lembrando que se você passou em Dezembro de 2018, por exemplo, você começará em Setembro de 2019!
  • Quais são as bolsas disponíveis?
    • Toda universidade tem uma sessão onde listam todas as bolsas disponíveis!
  • Posso trabalhar enquanto estudo no Reino Unido?
    • Pode! Com o tier4 você tem direito de trabalhar 20 horas semanais, mas lembre-se que seus estudos são prioridade. O mestrado é bem puxado e trabalhar simultaneamente pode atrapalhar. Se você for uma pessoa organizada, então acho que vale a pena!
  • O que já posso ir adiantando?
    • Se você já sabe o país que vai, você já pode se aperfeiçoar na língua; fazer o exame de proficiência exigido; traduzir documentos que você já tem em mãos; juntando dinheiro como puder.

Para mais dúvidas sobre pós-graduação no exterior dá uma olhadinha nesse post aqui!

 

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Atenção!! Apesar desse ser um post para te inspirar a correr atrás do seu sonho, o Once Upon a Trip tem plena noção que pessoas tem experiências muito distintas e vêm de backgrounds muito diferentes. Não queremos reforçar um discurso meritocrático e sabemos que devemos reconhecer privilégios. Nós tivemos sempre a oportunidade de estudar, de ter um teto para morar e comida na mesa. Mas cada um tem seus próprios desafios em escalas distintas e nenhum sonho deve ser deixado de lado! Qualquer que seja ele, não desista! Você também não precisa abdicar de tudo que te faz feliz por um sonho, mas deve saber priorizar as coisas que, no longo prazo, vão te levar aonde quer chegar.

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Quer seguir a Raquel e acompanhar a jornada dela na Inglaterra? Clique aqui para conferir seu perfil no Instagram!

 

 

 

 

2 thoughts on “Quando seu sonho de estudar fora vale todo esforço – Raquel Bonelli para Women on The Move”

  1. Que história linda ! Tive o prazer de estudar com a “Rachel” (sutaque inglês, como a chamávamos rs) em um curso de Inglê… Ela sempre foi essa menina doce, determinada e de muitos sonhos … Toda sorte do mundo nessa nova jornada, você é e sempre foi uma inspiração !

  2. Raquel, parabéns pelo seu sucesso! Apesar de trabalhar no mesmo ambiente, não sabia da sua história nesse nível de aprofundamento. Fico muito feliz por vc e tenho certeza que vc vai contribuir bastante no setor que escolheu.
    Beijos grandes!

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