Morar e estudar fora Viagens para dentro

Quem sou eu quando volto pra casa?

Quem mora fora sabe o dilema que é voltar pra casa. Você sempre espera aquele momento com tanta ansiedade. Um pouco de sol, comida da mãe, abraço dos amigos. Nos dias que antecedem você traça todo o plano das coisas que não pode deixar de fazer quando estiver por lá. Afinal, nunca sabe quando será a próxima vez.

O corpo relaxa. Você sabe que estará entre pessoas que te querem bem. No meu caso, é quando vem o resfriado. Parece que o corpo entende que eu poderei ser cuidada em breve.

O vôo parece que está dando 5 voltas no planeta. Não chega nunca. Quando chega, o momento em que você vê as carinhas felizes te esperando no desembarque te traz lágrimas nos olhos. Vontade de colocar essa memória numa moldura.

Não demora muito e a realidade chega.

Estão todos ocupados. Todos vivendo a semana para trabalhar e dormir, trabalhar e dormir. O mundo não para porque você chegou.

Os amigos mudaram. Estão em outro momento da vida. Uns casando, tendo filhos, comprando casa. Outros com o emprego dos sonhos aos 25, outros estudando pra faculdade. As reuniões estão mais escassas e elas geralmente não envolvem mais música e bebida. Eles são as mesmas pessoas, mas estão crescendo numa direção diferente da sua.

Se resolve sair sozinha, descobre que não sabe mais nenhuma linha de ônibus. Algumas ruas mudaram de sentido. Algumas ruas nem existiam quando você morava aqui. “Tô dirigindo do lado certo da rua?”. A gasolina aumentou consideravelmente.

Falando nos preços, você descobre que tudo aumentou, menos o salário. Agora faz sentido todo mundo trabalhando tanto.

Seus pais estão visivelmente mais velhos. Os cabelos brancos e as rugas que você nunca tinha reparado estão lá. Mas eles encontram outras maneiras de se manter jovens. Seus avós! Nem se fala! A cada 6 meses longe, parecem que passaram 10 anos.Seu irmão mais novo pentelho passa a sentir saudade. Vira teu amigo.

O seu quarto parece o mesmo, mesmo que tenha virado o depósito de quinquilharia da casa. Apesar de você não conseguir achar suas coisas antigas, sua cama ainda é a coisa mais confortável do mundo.

Você se esquece o quão boa é a comida. Depois de anos comendo sanduíches pro almoço, você finalmente bate um prato feito de respeito. Misturando estrogonofe, bobó, feijão, farofa, churrasco e tudo mais que couber.

Se antigamente você morava aqui, mas só escutava música estrangeira, agora você mora lá, mas só escuta Anitta, Molejo e Safadão.

O português e o inglês se misturam meio sem querer. “Eu posso ter uma cerveja, por favor”. “Because eu…”. Você esquece que agora todo mundo na rua entende o que você fala.

Você se irrita com os hábitos antigos dos quais já tinha se livrado. Acha um absurdo não reciclarem. Esquece que “furar” com alguém é aceitável até o último segundo. E dar um jeitinho é normal, mesmo que seja fora da lei.

Você fica noiada achando que vai ser roubada porque toda sua fonte do que acontece no Brasil são as tragédias no jornal. Esquece que se sair a noite sozinha vai preocupar a família inteira. Toque de recolher.

E assim volta à responder regras de uma casa que não é sua de verdade.

Você não pertence àquele lugar. Não permanentemente. Passou muito tempo longe dali.

Você não pertence ao lugar que está morando agora também. Não nasceu ali. Não cresceu ali.

Quem vive uma vida fora de casa tem o privilégio de encontrar uma casa em cada canto do mundo. E a desvantagem de nunca se sentir completamente em casa.

Tá tudo tão igual e tão diferente.

Você ganha o mundo, mas não pertence à lugar nenhum.

10 thoughts on “Quem sou eu quando volto pra casa?”

  1. Essa de ficar doente é REAL! Ano passado fiquei doente uma semana antes de ir pro Brasil e adivinhe… acabei de sair do médico e meu voo sai em 48hrs ‍♀️

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