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Por que ser gorda é incômodo e ser magra é elogio?

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“Comi igual a uma porca hoje!”; “Ganhei 2kg! To ficando obesa!”; “Gordice do fim de semana”; “Gordo só faz gordice”; “Nem queria mesmo, sua gorda!”; “Você é tão linda de rosto! Devia perder uns quilinhos!”; “Falar mal de mim é fácil, quero ver vestir 36!”; “Pelo menos eu tô magra e plena!”

Essas são frases que costumo escutar o tempo todo por aí sendo ditas consciente e inconscientemente. Em todas elas podemos ver o quão natural é usarmos a palavra GORDA como pejorativa e com a finalidade de diminuir alguém.

Ser gordo incomoda, né? E a resposta instantânea que está na boca do povo é: ser gordo não é ser saudável, não podemos incentivar a obesidade.

A regra número um aqui é: Pare de usar a carta “saúde”! Você não se incomoda com gordo porque ele não é saudável, você se incomoda porque foi ensinado que é errado e feio. Que gordo é sinônimo de preguiça e descaso.
Você não se preocupa com seu amigo magro que enche a cara todo fim de semana e tem potencial alcoólatra; você não se preocupa com sua amiga magra que é bulímica; você não se preocupa com seu amigo magro que tem depressão; você não se preocupa com sua amiga magra que cheira cocaína em festinhas; você não se preocupa com o amigo magro que só come fast food; ou com a amiga de barriga chapada que é anêmica.

Você NÃO se preocupa com saúde. Você se preocupa com o gordo.

A gente bate palma toda vez que vê uma foto de “antes e depois”, como se fosse a maior conquista da vida de alguém: emagrecer.

Pois aqui vão dois antes e um depois um pouco diferentes pra você:

 

Nas primeiras fotos sou eu magra. Outro dia ouvi uma amiga dizer – sem eu ter perguntado a opinião dela – que eu “deveria focar nessa foto daqui pra frente”. Mal sabe ela que durante essa foto eu tomava sibutramina, receitada por um médico biruta que não ouviu minhas reclamações das mudanças de humor (muita histeria), perda completa do apetite e taquicardia. Essa Louise foi parar no hospital num feriado, onde a médica que a atendeu disse que se ela não quisesse morrer era pra parar de tomar o remédio. Sem contar com outras modificações para entrar no padrão como os 10 anos de todos os tipos de escova progressiva que você possa imaginar. Mas tá gatinha na night, então tá valendo.

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A segunda foto é uma Louise bronzeada com cara feliz e com alguns kg a mais que nas primeiras fotos. Apesar de ter se recuperado dos sintomas do remédio, essa Louise teve que lidar com problemas de saúde maiores como a depressão e ansiedade. Ela parou de sair de casa, quando saía não conseguia interagir nem com as pessoas com quem ela se sentia confortável. Ela parecia feliz nas fotos, mas tinha crises de ansiedade porque não queria enfrentar uma fila ou frequentar sua universidade porque se sentia sufocada. Essa Louise não teve compreensão imediata dos amigos e teve vontade de deixar de existir. Mas ela ainda estava mais magra.

As últimas fotos são de uma Louise feliz. Ela está bem mais pesada que nas últimas fotos, mas ela não toma mais nenhum tipo de medicação para depressão. A ansiedade está controlada depois de terapia e tratamento. Ela está fazendo o mestrado que tanto queria, tem tido sucesso no início sua vida profissional, ela tem amigos com quem pode contar, pais que a apoiam. Ela tem a oportunidade de viajar com frequência, morou em diferentes países, fala 4 línguas e, segundo os exames de sangue, tudo esta na mais perfeita ordem.

Mas ela engordou.

Ela está acostumada. Ora ou outra emagrece e engorda. Tudo fruto das suas escolhas. Esteve em Paris um fim de semana desses (croissants, crème brulè!), na Ucrânia alguns meses atrás (muito licor de cereja e drinks com os amigos!) , na Inglaterra uma semana antes (full English breakfast!) e passou 6 meses na Índia (curry nosso de todo dia!). No último verão conheceu 4 países novos e, consequentemente, culinárias novas. Dividiu refeições com amigos que fez pelo caminho, cozinhou com pessoas que gosta e foi alimentada por amigos que a receberam de braços abertos. Ela comeu coisas que você nunca nem ouviu falar. E cada refeição teve uma história. No regrets.

Ah, ela joga bola toda semana e até ganhou um campeonato esse ano. Tem andado bastante de bicicleta também. Podia estar praticando esportes com mais frequência, mas não está sedentária. Não que alguém se importe, né.

Mas ela engordou.

Quando ela emagrece, os boys do passado surgem das cinzas pra dar “oi”. Quando ela ganha peso, eles somem de novo. Acontece. Se for na night e diz não para um carinha, ele a chama de gorda. “Não queria mesmo!”. Porque essa é a coisa mais ofensiva que ele consegue pensar.

Mas ela engordou. Que coisa horrível. Não é saudável!

Ninguém pareceu se importar com minha saúde quando ela andava mal. Foi quando eu estive feliz que comecei a incomodar. E é difícil construir amor próprio quando constantemente estão tentando te provar que você não é digna de amor.

No meu “depois” eu engordei. Mas de todas as diferenças de uma foto para a outra, essa é a que menos importa. Eu fiz as pazes com a balança porque sei que uma hora ou outra virá uma outra onda fitness, seguida de mais uma onda em que me permito os prazeres da comida. Porque eu assumi o compromisso de ter um corpo saudável e feliz, não importando o tamanho.

Não se mate com uma dieta que não te faz feliz para agradar os outros. Eles nunca estarão satisfeitos.

Faz uns 7 anos, num enterro, eu estava pesando 48kg – fruto de uma dieta baseada em sibutramina – me disseram que precisava perder uns quilinhos. Num momento delicado e de dor, aquela pessoa que enterrava alguém da família estava preocupada em apontar que eu precisava emagrecer. Nunca é suficiente.

Outro dia ouvi de amigos que fulana não estava mais bonita porque engordou. Deve ter ganho uns 3kg! Continua linda e interessante, mas aparentemente isso fez com que caísse no ranking masculino.

Isso tudo porque nem sei o que é ser obesa. Não sei como é existir em um mundo em que não caibo, em que a roleta do ônibus não foi feita pensada em mim; num mundo em que pessoas ficam incomodadas de dividir espaço comigo; num mundo que as pessoas tem nojo de mim.

Ser obeso já sabemos que é um crime, mas o ato de engordar são os pequenos delitos que dia após dia nos modificam nos olhos daqueles que priorizam o superficial. Ganhe um kilo, perca um crush. Ganhe mais um e vai ouvir no trabalho que sua saia não é adequada para o escritório – “Muito reveladora!”. Ganhe 5kg e desista de encontrar roupas que caibam. Ganhe 10kg e será proibida de frequentar a praia.
Por esses e outros motivos, fiz uma lista para aqueles que estão sempre dispostos a desconstruir seus próprios comportamentos. Reuni 5 coisinhas que podem nos ajudar a ter uma convivência mais harmônica e cheia de amor e compreensão:
1- Pare de usar “magra” como elogio!

Magreza não faz de você uma pessoa melhor! Você pode trocar esse tipo de elogio por elogios ao novo estilo de vida saudável de alguém. Elogie os benefícios que um emagrecimento saudável traz: pele e cabelo mais bonitos, musculatura mais rígida, disposição física. A magreza em si não diz nada!

2- Procure conversar com aquela amiga que tem perdido ou ganhado muito peso ultimamente.

A perda e o ganho de peso excessivos podem ser sinal de problemas de saúde e doenças mentais tais como: depressão, transtorno de ansiedade, bipolaridade, hipotireoidismo, AIDS, transtornos alimentares, diabetes, entre outros! Não chegue já ofendendo ou elogiando alguém que ganhou ou perdeu muito peso, pois não sabemos a origem dessas mudanças de metabolismo. Caso a pessoa esteja consciente de sua mudança de peso e feliz com isso, supere! Não é você que tem que se preocupar. Caso perceba que essas mudanças são fruto de algum outro problema, ofereça o suporte necessário e sugira acompanhamento médico.

3- Empodere as amigas e a si mesma!

Não ofenda a amiga que já é insegura com seu peso com as suas próprias inseguranças. Quem não tem aquela amiga que já está dentro dos padrões, mas continua reclamando constantemente do seu corpo e se achando feia? Não é justo ficar reclamando que ganhou ou perdeu 1kg e se chamar de obesa na frente de uma pessoa que claramente vem lutando contra a balança para aumentar ou diminuir o peso. Procure substituir as reclamações sobre você por elogios aos outros. Diga à sua amiga o quanto ela é bonita e não deixe que ela se diminua. Se você sente que a necessidade de reclamar do seu próprio peso é grande, procure um acompanhamento psicológico para entender melhor suas próprias inseguranças, mas não descarregue em terceiros.

4- Tenha mais empatia!

No caso da pessoa obesa, vemos que muita gente tem nojo e aflição de sentar perto ou de ter contato físico. Mas devemos lembrar que obesidade é uma doença e que existe tratamento adequado para tal. Você não olha para alguém que tem câncer com nojo e inconformado com sua incapacidade de se curar, então não aja dessa maneira com o obeso. Ceda seu assento no ônibus, ofereça ajuda se perceber que essa pessoa tem dificuldades de se locomover em um lugar com pouca acessibilidade. Ah! E poupe seu julgamento! Há pessoas suficientes para julgá-lo, inclusive ele mesmo.

5- Enxergue além da balança!

Peso é algo completamente mutável. Caráter não. Procure se relacionar com quem te faz feliz, em vez de escolher as pessoas com quem se relaciona de maneira tão superficial. Faça uma lista de qualidades que você quer num parceiro que não incluam quaisquer atributos físicos e veja um mundo novo de possibilidades de pessoas que podem te fazer feliz.

Peço perdão pelo texto tão pessoal, mas tenho certeza que não falo só por mim. Vou terminar esse texto compartilhando fotos de mulheres incríveis que têm sido inspiração em muitos sentidos – tanto em termos de redefinir o que é ser sexy, como mostrando que o corpo é só um acessório da sua personalidade.

Nunca se esqueça que você pode ser o que você quiser!

Para se inspirar:

Ashley Graham – Modelo e body activist, Ashley é um dos meus instagrams favoritos atualmente. Recentemente lançou sua linha de biquínis chamada SwimSuits for All para atender todos os tipos de corpo quando o assunto é arrasar na praia.

 

Outras duas modelos pra ficar de olho:
Candice Huffine and Tara Lynn

 

Jessamyn Stanley – Instrutora de Yoga que não tá nem aí para o que você pensa do peso dela. Ainda vai questionar a saúde? Cadê seu Deus agora?

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Mc Carol – Tão irreverente e engraçada que o peso não faz diferença. Quero ser tão foda quanto Mc Carol.

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Lena Dunham – Atriz, roteirista e cineasta, Lena sempre mostrou o quão confortável é com seu corpo na série Girls em que estrelou como protagonista.

Amy Schumer – A comediante sempre recebeu críticas pela sua forma, mas até onde eu saiba ser gordinha nunca atrapalhou suas performances. Amy, vamos ser amigas! Nunca te pedi nada!

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Anitta – a cantora já afirmou ser viciada em comer e está sempre balanceando momentos em que está mais magra e momentos em que se permite ser feliz. Sem esquecer que agora ela tem uma dançarina plus que mal conheço, mas já amo! Segue uma foto da nossa Anira comemorando o fim do carnaval em grande estilo!

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Miriam Bottan – A jovem faz sucesso no instagram com suas fotos sinceras do “antes e depois” depois de ter vencido a anorexia.

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Personagens da ficção também contam!

Miranda Bailey – A bicha é chefe geral de cirurgia e casada com o maior partidão do hospital em Grey’s Anatomy dando de 10 a 0 em todas as outras personagens padrãozinho.

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Sookie St. James – Em Gilmore Girls, o fato de Cookie ser gorda nunca foi uma coisa necessária de se mencionar. Personagens complexas e adoráveis vêm de todos os tamanhos! <3

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Compartilhem nos comentários nomes de outras pessoas que te inspiram a aceitar seu corpo. E claro, se discorda ou se sente ofendido por qualquer colocação aqui, estou sempre aberta ao diálogo. Opiniões são tão mutáveis quanto peso! <3

14 thoughts on “Por que ser gorda é incômodo e ser magra é elogio?”

  1. Nossa, você me ajudou muito com esse texto. Já faz um tempo que busco me empoderar em relação ao meu corpo. O qie é muito complicado pois o tempo inteiro tentam nos fazer crer que ser gorda é feio. Tem momentos que olho no espelho e me vejo maravilhosa. Outros eu só quero chorar e nunca mais sair de casa. E nesses momentos eu crio forças me apegando nas fotos dessas mulheres gordas maravilhosas que conheci. Tem a Luisa Junqueira, youtuber maravilhosa que conheci e me da forças todo dia para sair de casa. Tem a Alexandra, do Canal Alexandrismos que eu daria tudo pra ter 1% da maravilhosidade dela. Tem a Ju Romano que eu sou apaixonada. E São essas mulheres que me fazem me sentir maravilhosa independente de quanto a balança me mostre estar pesando. Enfim, estou em um momento de crise e esse texto foi bem importante pra mim! Toma um abraço virtual de agradecimento e admiração ! ❤

  2. É difícil, às vezes nosso corpo incomoda mais aos outros que a nós mesmas… Já cansei de ouvir de amigas “a nova namorada do fulano é horrível, ela é gorda!” e uma amiga (?) me contou “para o meu bem” que meu ex namorado estava falando que me viu e disse “ela engordou, ainda bem que eu larguei ela”.
    Esse texto foi bem importante pra mim, me identifiquei demais! Estudamos juntas no fundamental. Mudamos muito e não nos vemos pessoalmente faz uns bons anos, então é como se não nos conhecêssemos mais. Porém, lendo seu texto, senti que estava conversando com uma pessoa que convivo diariamente… É porque eu me vi no seu lugar, passando pelos mesmos problemas. Obrigada por dividir sua história e ajudar outras pessoas a se sentirem bem consigo mesmas.

    1. Isis! Só vi o comentário agora! E tendo te visto ontem, posso confirmar que você tá linda. Às vezes eu acho que quando to acima do peso eu acabo adquirindo um filtro de homem babaca. Quem a gente atrai mais gordinha é o cara que não vai dar a mínima se a gente vestir 36 ou 50. hahaha Azar dele que te perdeu! “Ele é um babaca, ainda bem que você largou ele!”

  3. Parabéns e obrigada pelo texto! Ser gordo realmente incomoda muito as pessoas simplesmente porque destoa de uma estética imposta, todas essas dietas loucas por ai comprovam bem isso, saúde é mera desculpa pra justificar esse comportamento bizarro de definir o que uma pessoa é ou pode ser pelo seu peso. Ser feliz, se amar e cuidar do seu corpo não importa a sua forma deveriam ser a meta, mas as vezes a gente esquece disso, principalmente por que vivem tentando nos convencer do contrário. Obrigada por ter sido a mensagem no caminho certo hoje. Você é e esta linda e o problema ta em quem não consegue perceber isso!

    1. Obrigada, Andressa! Fico feliz de ter feito seu dia melhor. Tanta mulher da porra linda por aí! A gente precisa sempre trocar figurinha com quem passa o mesmo que a gente! <3

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