Morar e estudar fora Sobre lugares Women on the move

Adoração à branquitude

Depois de alguns perrengues, cá estou eu acostumada com o meu cotidiano na Índia. Depois de noites de um verão quente num apartamento sem ar condicionado, acordo todos os dias para cozinhar a marmita do trabalho, tomo banho, coloco a calça mais larga do armário, enrolo um lenço de tecido leve no pescoço e calço minhas havaianas. Pronto. Estou pronta para o trabalho.

Do portão do apartamento até a rua principal, eu e Bella andamos depressa todos os dias para não nos atrasarmos. Passamos rapidamente pelas crianças, homens e mulheres que nos observam atentamente e tentam interagir fazendo 10 perguntas por segundo “Qual seu nome?”, “Qual país?”, “Está aqui a trabalho?”, “Tá estudando?” – tudo num inglês bem simples.
Quando vimos pela primeira vez a vizinhança, estranhamos a rua de terra batida, as casas sem portas voltadas para rua e a falta de iluminação. À noite, os homens colocam sua cama do lado de fora das casas. Não sei bem ao certo o motivo, mas acredito ser por conta do calor. São pessoas simples: mandam seus filhos para a escola todos os dias; comemoram os feriados e outras celebrações na rua; batem boca entre si quando necessário; jogam críquete na rua com qualquer pedaço de pau que encontrarem pelo caminho.

Nos disseram que era necessário ter cuidado, pois era uma região perigosa onde viviam pessoas que não eram “boas” (palavra de gente criada ao leite com pêra por aqui). Não são pessoas ruins, são pessoas pobres. E, coincidentemente, de pele mais escura que o resto da população da cidade. Assim como no Brasil, aqui a pobreza também tem cor.

Ligue a TV aqui na Índia e verá os indianos mais brancos do país nas novelas – que, aliás, conseguem ser mais dramáticas que as telenovelas mexicanas. Os atores mais famosos de Bollywood costumam ter pele clara. Os punjabs são referência de beleza, região onde a pele das pessoas costuma ser mais clara também.
Sem falar nos cremes de clarear a pele que são populares por aqui e que, muitas vezes, têm atores e atrizes de Bollywood protagonizando seus comerciais na TV aberta. Os mesmos atores que, ao filmar cenas ao ar livre, tentam fazer da forma mais rápida possível para que não se bronzeiem demais. Todas essas imagens geram o padrão de beleza indiano, onde quanto mais branco, mais bonito se é.

Com o tempo, fui reparando que a obsessão da vizinhança era mais voltada a minha amiga, que tem pele mais clara e não passa por indiana. As crianças sabem seu nome, seu país e sempre fazem festa ao vê-la chegando. Acompanham-na até a porta de casa aos gritos e acenando. Múltiplas vozes gritando “Hi” até ela desaparecer de vista. Um dia, quando cheguei sozinha em casa, esperei a reação de sempre, mas a vizinhança estava calada. Precisei passar no meio da partida de críquete da criançada enquanto eles esperavam atentamente e em silêncio que eu passasse para que eles voltassem a jogar. Disse “Hi!”, mas não obtive resposta.

Quando viajamos com nosso grupo de amigos, os mais brancos se destacam. Os indianos amam tirar foto com estrangeiros! Nessas horas, adoro parecer indiana porque então não preciso lidar com o assédio nível “celebridade de Bollywood” que os mais brancos recebem. Às vezes eles pedem até que segurem seus filhos no colo para bater uma foto, o que me lembra muito as mães que querem que o Papa encostem em seus bebês para abençoá-los de alguma forma. Aqui a branquitude é sagrada.

Em uma entrevista para o The Guardian, li uma teoria de que o racismo da India tem duas possiveis – e nao excludentes – explicaçoes:

1- Primeiramente, partindo da ideia do conflito entre arianos e dravidianos. Segundo um site que explica a origem do hinduismo,  os arianos (os de pele clara), que migraram para a India a partir da Asia Central, empurraram os  dradivianos (os de pele escura) – aborigenes do Subcontinente Indiano -para o sul. Existia uma ideia de superioridade ariana que faz com que ate hoje a pele branca seja vista com superioridade em relacão a pele negra.

2- Segundo, podemos analisar da perspectiva das castas, onde as castas superiores, supostamente, são aquelas que têm a pele mais clara. A maioria daqueles que esteve em posição de poder na Índia (pausa aqui pra explicar que quanto mais alta sua casta, mais poder você tem) – desde os arianos até os colonizadores britânicos – tinham a pele clara.

Essa adoração à branquitude não vem apenas das pessoas humildes da minha vizinhança. No trabalho, percebo que eles gostam de mostrar as “estagiárias brancas” para as pessoas importantes que visitam o escritório. Já escutamos de um colega indiano que ele não tem preferência por mulheres, contanto que não sejam “nigger”. Meu cabelo com cachos (viva a transição capilar!) – que nem crespo é – já foi comparado a um instrumento de lavar panelas. Das mais simples atitudes, até os comentários mais absurdos – o racismo tá bem vivo por aqui e não vejo previsões de melhora.

Não culpo minha vizinhança pelos meus “ois” não correspondidos. Eles acreditam que sou mais uma como eles. Não foram ensinados que devem ter orgulho de sua pele. Aqui, passo despercebida. Sou parte desse ambiente complexo e complexado. E se você ficou assustado com esse relato: abra o olho! O Brasil está longe de ser diferente. Tá na hora de você se colocar no lugar do outro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *