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Sobre Feminismo e panelas

Quem me conhece bem, sabe que eu não tenho medo de me auto intitular FEMINISTA com letras maiúsculas. Não tenho medo da palavra. E até antes mesmo de aceitar esse título – com medo do sentido negativo que carrega para as pessoas que pouco entendem de mulheres – consigo lembrar de situações que comprovam que o feminismo, ou a independência de uma forma geral, faz até parte da minha personalidade desde cedo.

Aos 4 anos, descobri que conseguia abrir o chuveiro sozinha ao colocar um banquinho dentro do box. Tomava inúmeros banhos por dia só pelo fato de estar fazendo algo sozinha pela primeira vez. Ainda criança, me lembro de pedir aos meus pais que eu fosse sozinha na rua comprar pão no domingo. Depois de muito insistir, eles fingiram deixar, enquanto me seguiam pelo caminho e se escondiam atrás de postes para que não os visse.

Mais tarde, comecei a bater boca com os meninos do bairro para poder participar do futebol. Quando eu finalmente jogava, não me importava nem com o pé ralado no asfalto e os dribles dos meninos mais velhos. Também tentava convencer as meninas na educação física a optarem pelo futsal em vez do queimado – “Se os meninos jogam, por que também não jogamos?”.

Cresci ao lado de mulheres fortes que sempre me serviram de exemplo: desde de quem sempre trabalhou com o que ama; de quem sempre fez questão de estudar e ler muito e de me mostrar o quanto isso seria importante para mim; de quem até hoje entende mais de administração sendo dona de casa que um CEO numa multinacional; até quem teve coragem de pedir o divórcio, mesmo que a contragosto da família, para viver para si, viver feliz;

Contudo, não foi antes da adolescência que eu senti necessidade do feminismo. Nessa ocasião, tinha deixado de passear com a minha família porque precisava estudar para uma prova. Ao ouvir o motivo da minha ausência, a amiga da minha avó, que os acompanhava, disse uma frase que eu nunca esqueci:

“Pra que essa menina ficou estudando? Ela tem mais é que aprender a arear uma panela!”.

Sim, arear panela. A amiga da minha avó – cujo nome fiz questão de esquecer – realmente acreditava que isso era importante para o meu desenvolvimento como ser humano. Essa deve ser a ordem natural das coisas mesmo: a gente aprende a falar, andar, arear panela, casa e depois morre.

Depois de anos remoendo essa frase, hoje me peguei areando uma panela por horas sem muito sucesso. Queimei um brigadeiro. Quanta vergonha! Devia mesmo ter aprendido a arear uma panela ao invés de estudar. Mas aí eu estaria areando panela sem emprego. Sem meu dinheiro. Sem pagar minhas contas e aluguel. Sem diploma. Sem tudo – e ainda bem pouco – que conquistei até agora.

Tenho essa mania de guardar em mim, às vezes por anos, coisas que pessoas estranhas que cruzei pelo mundo disseram pra mim ou sobre mim. Hoje, agradeço à essa senhorinha inconveniente, que claramente foi criada num contexto completamente diferente do meu, pelas suas palavras de ignorância. Já lavei roupa, cozinhei, trabalhei, mas a panela… ah, a panela to areando ainda (E com um belo de um sorriso no rosto!). Acho que acabo só depois de defender a tese do doutorado.

4 thoughts on “Sobre Feminismo e panelas”

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